 

Marie Ferrarella 
Onde est papai

Ttulo: Marie Ferrarella 
Autor: Onde est papai
Ttulo original: VALENTINE
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1996
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina 
Correo: Andresa Bastos
Estado da Obra: Corrigida
Projeto Revisoras
	
Cindy Collins estava esperando beb, mas o pai de sua filha havia desaparecido!
Brady, volte para casa. Eu te amo, Cindy. 
Cindy tinha poucas esperanas quando colocou este anncio no jornal. Graas a essa iniciativa, entretanto, Brady Lockwood foi encontrado... meses aps seu sumio! Mas sem a menor idia de quem ela era... ou por que Cindy se referia a ele como o pai da filha que trazia no ventre!



CAPTULO I

Brady, volte para casa.
Eu o amo.
Cindy.

Cindy repetia mentalmente o anncio que havia colocado na seo de correspondncias pessoais do principal jornal da cidade. Seus nervos estavam  flor da pele, fragilizados pelas tentativas frustradas de reencontrar o grande amor de sua vida.    
O recorte estava no fundo da bolsa. Era o primeiro de uma srie que fora publicada durante quatro semanas, sempre s sextas-feiras.
Desde o princpio ela tivera plena conscincia das parcas chances de que Brady ao menos passasse os olhos por essa coluna do jornal e tomasse conhecimento de sua mensagem. O seu Brady Lockwood jamais leria assuntos dessa natureza.
Mas o desespero conduzia s mais estranhas veredas... e Cindy Collins ansiava por saber do paradeiro dele, nem que fosse para v-lo somente uma vez mais. No apenas por tratar-se do pai da criana que trazia no ventre, mas tambm porque o amava.
Precisava saber se ele estava bem. S ento poderia dar prosseguimento  prpria vida.
Por tudo isso, quando o policial lhe telefonou e depois entrou em sua floricultura, com o anncio nas mos, Cindy considerou o fato um pequeno milagre. Ento se lembrou de que carregava dentro de si o mais sublime dos presentes e se perguntou se uma linda surpresa teria o poder de trazer outra.
Suspirou ao recordar a experincia de instantes atrs. Recapitular os fatos poderia ajud-la a se acalmar e a agir com mais racionalidade. Como Brady se comportaria? perguntou-se tristemente.
O sargento Augustus Tripopulous lhe indagou polidamente se fora ela a responsvel pelo anncio. Ante sua resposta afirmativa, ele lhe contou a respeito da vtima que havia atendido cinco meses atrs. E ento a conduziu at onde o moo se encontrava no momento, o restaurante de sua irm.
Antes disso, entretanto, Cindy se debulhou em lgrimas de puro alvio. O policial Gus nem mesmo teve de lhe dizer sobre o medalho de So Cristvo que o homem trazia ao pescoo.
Quando se acalmou, dialogaram acerca da utilidade de ela levar consigo um lbum de fotografias. Registros assim poderiam ajudar o rapaz chamado Brady, o seu Brady, a reconhec-la. Decidiram passar rapidamente pela casa de Cindy.
Feito isso, apressaram-se ao encontro do homem que poderia mudar a vida dela. E, apesar de tudo, parecia que as cenas transcorriam com uma lentido apavorante.
Mal haviam entrado no estabelecimento e Cindy j trazia no peito a certeza de ter encontrado Brady. Seu corao gritava a altos brados a alegria de estar prestes a rever o dono.
Ou, talvez, se ela acreditasse com todas as suas foras, isso viesse a se concretizar...
O policial a orientara a no ter grandes expectativas, mas, aps longos meses de agonia, Cindy se agarrava a essa esperana como um nufrago  viso longnqua de um navio. Recusava-se at mesmo a considerar a possibilidade de no ser Brady o homem que vinha trabalhando temporariamente como garom no restaurante.
Somente quando j estavam dentro do amplo salo foi que ela procurou controlar a ansiedade. O aroma da cozinha grega invadia o ambiente. Normalmente, isso bastaria para avivar seu apetite, mas no momento estava como que anestesiada. Apenas caminhava atrs de Gus, como em transe, rumo a uma saleta.
E se no fosse Brady? perguntava-se em desespero.
Cindy no sabia se teria foras para suportar mais uma decepo.
Ele conhecia o prprio nome. Mas somente o primeiro. E devia essa informao quele policial, que o encontrara na depressiva noite que marcaria toda a sua vida. O guarda notara a medalha de So Cristvo presa a um cordo que trazia ao pescoo e na qual estava gravado: Para Brady. Amor, Cindy.
Isso era tudo. As palavras roavam seu peito a cada lento passar de dias. O estado da inscrio revelava que vinha usando a medalha h muito tempo.
Essa era a nica pista para lev-lo ao homem que havia sido e  vida que tivera. Ao cotidiano do qual no se recordava, graas a uma violenta pancada na cabea que lhe causara uma cicatriz logo abaixo da linha do cabelo.
Brady nem ao menos se lembrava de como se ferira, mas, dadas s condies em que Gus o encontrara, era provvel que tivesse sido assaltado. A marca no pulso indicava que seu relgio havia sido levado, juntamente com a carteira.
Mas os bandidos haviam lhe roubado mais do que isso, Brady pensou, chateado, enquanto transportava pratos do armrio para uma bandeja. Os ladres lhe tinham levado a identidade.
J se contavam cinco meses desde que comeara a viver nesse vcuo. Uma neblina espessa lhe turvava as lembranas.
Bandeja nas mos, Brady virou-se e viu Gus entrar no restaurante. Estava acompanhado por uma bela ruiva, em adiantado estgio de gravidez. Movendo-se com a facilidade de quem estava em um segundo lar, o policial encaminhava-se para a mesa cinco, segurando a mulher pelo brao. Brady notou que ela nem prestava ateno por onde ia. Apenas olhava em sua direo, com uma intensidade inquietante.
Devia estar faminta, concluiu ele. Esperava que no fosse solicitar a especialidade da casa, porque o ingrediente principal estava em falta.
A demanda no horrio de almoo havia sido superior ao normal e justificaria uma hora de descanso nesse momento mais tranqilo, mas Brady preferia continuar trabalhando a descansar no sto. Gostava de se sentir ocupado.
Alm do mais, cada pessoa que visitava o Aphrodites significava uma chance de ele ser reconhecido por antigos amigos ou familiares. Rezava para que, quando isso viesse a acontecer, sua memria se libertasse do estado de torpor e o conduzisse  to sonhada liberdade.
Mas, at o momento, nada havia ocorrido.
A mesa cinco era uma das suas. Deixou a bandeja no balco, pegou o bloco de pedidos, a caneta e foi ver o que Gus e sua acompanhante gostariam de comer.
Ele estava se aproximando. O corao de Cindy ameaou parar e, paradoxalmente, logo em seguida disparou a uma velocidade alucinante.
Isso era ridculo, recriminou-se. Mal conseguia respirar. Por que estava to nervosa? Brady no era um estranho a quem encontrava pela primeira vez. Apenas agira como um desconhecido ao sumir repentinamente de sua vida.
E da vida de todos, emendou. Mas esse fato s fora descoberto trs semanas aps o sumio. E tudo porque seu orgulho a tinha impedido de ir ao apartamento de Brady ou a seu local de trabalho, averiguar se estava bem. Quando percebeu seu erro, as pistas j estavam por demais frias para ter alguma valia.
Ningum sabia onde ele se encontrava, ou o que lhe tinha acontecido. Havia ido a St. Louis  negcios... e nunca mais dera notcias.
Suas ltimas palavras voltaram a ecoar na mente de Cindy, como acontecia todos os dias desde ento:  melhor mesmo eu passar essas duas semanas em St. Louis. Em seguida, batera a porta e sara de sua vida.
No havia familiares a quem recorrer quando se constatou o desaparecimento. Brady no possua parentes. Pistas no existiam, alm do fato de ele no ser o tipo de pessoa que sumia sem mais nem menos, ainda que no auge da fria.
A vistoria em seu apartamento no fora de grande auxlio. Cindy dera falta apenas da mala e de alguns objetos, provavelmente nela acondicionados para a viagem. Tudo no modesto lar de um dormitrio indicava que os pertences aguardavam pela volta do dono.
Assim como Cindy.
O policial de St. Louis, que a acompanhara quando finalmente ela decidira ir at a cidade para dar queixa do paradeiro ignorado de Brady, fitara-a com expresso gentil e sbia. Estava claro o que deduzira. Achara que uma garota grvida no estaria nos planos do homem, e por isso sumir no mundo lhe fora mais que conveniente.
Embora as palavras estivessem repletas de eufemismos, seu ponto de vista era bvio. Afinal de contas, ocorrncias com essas caractersticas eram bastante comuns.
Indignada, Cindy fizera questo de lhe informar que Brady nada sabia sobre a gravidez quando de sua viagem para St. Louis. Aos trs meses de gestao, a barriga ainda no tinha se pronunciado.
A discusso com Brady na noite da viagem girara sobre o assunto filhos. Cindy ficara furiosa, atnita, e nem se importara em lhe indagar se ia retornar na mesma noite. Em vez disso, dera-lhe as costas e se mantivera em silncio.
Vinha se recriminando por essa atitude todos os dias, nesses cinco dolorosos meses.
O que teria mudado se tivesse ido atrs dele quando bateu a porta? Havia sido orgulhosa demais e o preo que pagava era igualmente alto.
Ao constatar que Brady no retornara, Cindy a princpio deduzira que ele dormira no apartamento e viajara no dia seguinte para a estadia de duas semanas em St. Louis. Ante a ausncia dos costumeiros telefonemas que recebia quando ele no se encontrava na cidade, concluiu que ainda estava bravo. Mas esse era um comportamento incomum, e isso a preocupou.
Passaram-se duas semanas e o telefone no lhe trazia notcias do paradeiro de Brady. O humor de Cindy alternava-se da mgoa  raiva. Chegara a pensar a mesma coisa que o policial mais tarde sugeriria. Que ele achara que o relacionamento e seu temperamento explosivo no valiam mais a pena.
Mas Brady no tinha pistas de que suas oscilaes de humor se devessem a uma reviravolta nos hormnios, em fase de ajuste para enfrentar a novidade da gravidez.
Recusara-se a acreditar que havia sido abandonada sem uma satisfao, mas tudo a levava a deduzir ser essa a nica explicao plausvel para seu drama.
Somente quando criara coragem de ligar para o trabalho soubera que Brady no aparecia ali desde sua ida a St. Louis. Alarmada, contatara a polcia daquela cidade.
Quantos desencontros, lamentou. E por tudo isso, naquele momento, encontrava-se sentada a uma mesa de restaurante, diante de um guarda que lhe dizia ter localizado Brady a vagar pelas ruas. Estava pasma ao ver o homem que amava caminhar em sua direo sem o mnimo trao de reconhecimento no olhar.
Tomou um pouco da gua servida pelo policial. Poderia ter bebido um rio e isso de nada lhe adiantaria.
Embora tivesse rezado para encontrar Brady, era-lhe difcil acreditar na histria do sargento sobre uma pessoa que andava a esmo to perto da casa dela.
Era raro ver andarilhos naquelas redondezas. Bedford era uma cidade pacfica, onde se podia caminhar pelas ruas  noite com segurana. Por outro lado, o relato acerca da amnsia parecia mais adequado a livros ou a telas de cinema, no  vida real.
Se Brady estivesse com amnsia, tudo automaticamente estaria explicado. No a deixara por livre e espontnea vontade. O que a aliviava sobremaneira.
E, nesse exato momento, era de consolo que Cindy mais precisava. Os olhos azuis do homem que adorava lhe indicaram que esse tipo de histria no acontecia somente na televiso. Estava ocorrendo com ela.
 Ol, Gus, como vai?
O sorriso radiante de Brady para o homem que o salvara revelava o tamanho de sua gratido. Gus o estava amparando nessa fase difcil, algo raro e impagvel.
Era curioso notar que Brady vestia azul, sua cor predileta. Talvez uma escolha instintiva. Um dado positivo, considerou Cindy. Infelizmente, porm, de nada mais ele parecia se lembrar.
Era um martrio viver assim, sob permanente angstia, Brady queixou-se em silncio. Em uma idade em que homens se interiorizavam e reviam relacionamentos pessoais, ele estava lutando para conhecer a si mesmo.
 Estou bem, Brady. Gostaria de pedir o prato de sempre. E voc, Cindy, o que vai comer?
Ele percebeu que a mulher o fitava de modo esquisito. Sua palidez e embarao o obrigaram a indagar:
 Algo errado, senhorita? Quero dizer, senhora...  rapidamente emendou, em franca aluso  gravidez.
Oh,  verdade, concluiu ela, assustada. Tudo o que o policial lhe dissera era... real. Respirou fundo e falou polidamente:
 Brady?
A voz dela era suave, delicada, e o fez lembrar-se de uma brisa de vero. No sabia de onde a sensao lhe vinha. Alguns sons... Seriam do cotidiano de sua famlia? Diabos! Era to assustador tentar buscar o desconhecido para logo adiante ver os acontecimentos lhe escaparem entre os dedos...
Voltou a ateno  mulher sentada  mesa. Ela sabia seu nome. Ser que o conhecia? Ou Gus lhe contara a histria de como o havia encontrado?
 Sim?
A voz grave no denotava nenhuma familiaridade. Bem poderia estar falando com uma estranha Cindy mordeu os lbios. A memria dele realmente se fora. No os estava enganando. O Brady que conhecia no fingiria to bem nem que sua vida dependesse disso. Tentou novamente, rezando por mais um milagre.
 Brady, voc no me reconhece?
Como ele queria isso! Gostaria demais de saber quem era aquela pessoa, de descobrir um vnculo com seu passado.
Mas a moa a nada o remetia, embora o perfume que usava lhe acendesse os sentidos de uma maneira... indecifrvel.
 No. Sinto muito, mas no.
Cindy aspirou e soltou o ar em golfadas. Gus bem lhe dissera que o encontro seria difcil. Por isso lhe sugerira que levasse o lbum de fotografias.
Ambas as mos se apoiavam sobre a encadernao de couro azul, como a tentar proteger as lembranas ali contidas. Talvez pudessem ser um talism. Afinal, estava diante de seu amado. S precisava fazer com que ele a reconhecesse.
Confuso, Brady buscava apoio em Gus, com o olhar. O policial fez um meneio com a cabea e falou com voz pausada:
	 Sente-se. Acho que finalmente achamos um sobrenome para voc, rapaz.
Brady fitou a moa cujos olhos acinzentados estavam repletos de lgrimas. A ansiedade por tanto tempo contida o inflamou a perguntar:
 E qual ?
 Lockwood  Cindy sussurrou, fazendo fora para no chorar.  Seu nome  Brady Lockwood.
Ele escutou e repetiu mentalmente seu nome completo diversas vezes, em busca de ecos. Nada. O nome de um homem deveria lhe significar alguma coisa, pensou, aflito. Era sua conexo com o futuro e com o passado. Com a imortalidade, at. Mas as palavras Brady Lockwood nada lhe indicavam.
A ruiva a quem Gus chamara de Cindy o observava com tamanha esperana no olhar que o fez desejar poder confort-la em vez de se firmar em sua angustiante priso. Mas nada lhe adiantaria mentir.
 Sinto muito, mas o nome no me soa nada familiar.
Cindy se levantou e esbarrou na mesa a imensa barriga. Antes que se pudesse antever o que faria, pegou a corrente, segurou o medalho com mo trmula e o apertou na palma.
 Sou Cindy. Cindy!
Um doloroso n se formou na garganta dela. A sensao era quase to ruim quanto se o tivesse encontrado morto. Porque tudo o que Brady havia sido, as emoes que tinham partilhado, esse emaranhado de fatos e sentimentos que davam sentido  vida... haviam se desintegrado.
Ela lhe tirou o cordo do pescoo e lhe exps a inscrio, como se isso pudesse dar validade s suas palavras.
 A Cindy citada no verso da sua medalha de So Cristvo. Voc tem de me reconhecer. Eu lhe dei a corrente e a plaquinha h dois Natais.
Fora o primeiro Natal que passaram juntos. A primeira vez em que fizeram amor. Sabia que seu olhar nesse momento lhe suplicava para que se recordasse ao menos disso.
 No se lembra?
 Cindy  repetiu ele, como se o termo fosse uma espcie de chave para uma passagem secreta... que a nada conduzia.  No.
No fazia idia de quanto lamentava a situao em que se achava. Sentia-se perdido, deprimido e impotente.
Gus ps-se de p. Com delicadeza, mas de modo firme, colocou a mo no ombro de Cindy. A tristeza dessa quase estranha lhe doa. E a compaixo lhe dava foras para ser racional.
 Por que no se senta? sugeriu com suavidade. Ela obedeceu, como se suas pernas no mais a pudessem sustentar.
Brady aguardava que sua memria voltasse. Por que isso no acontecia? Como ter se esquecido de uma mulher com pele de marfim, cabelos da cor do sol ao entardecer e olhos de um cinza que s vezes brincava com a cor azul?
Mas decifrava apenas a recente admirao, nada mais profundo. Sua mente se encontrava vazia. Ponderou se ela estaria enganada...
 Que tal lhe mostrar algumas fotografias?  Gus sugeriu a Cindy, sorrindo para a encorajar.
O lbum! O recurso podia ser til. Certamente, despertaria lembranas. Agradeceu a si mesma por sempre ter feito tanta questo de registrar os passeios que faziam juntos. Brady costumava protestar quando era fotografado.
Rapidamente, abriu o lbum enorme que tantas vezes folheara nesses longos meses de solido. Nervosa, passou por diversas pginas, em busca de uma imagem capaz de lhe trazer a memria de volta.
 Aqui  falou, apontando para uma foto onde Brady estava em p ao lado da rvore de Natal que ajudara a escolher e a decorar.
A pobre arvorezinha estava torta. Alguns galhos tinham se quebrado quando da passagem pela porta. Mas Cindy dissera que a pequenina precisava de muito amor, e Brady gargalhara e a chamara de sonhadora inveterada.
 Olhe para isto. Tirei esta fotografia no Natal em que lhe dei o medalho.
Cindy avaliou o semblante de seu amado e percebeu a ausncia de lembranas. Ele reconhecia apenas a si mesmo, e isso era tudo. Chateada, ela tratou de partir para a pgina seguinte.
 Esta aqui tambm  muito boa. Tnhamos ido a San Francisco naquele final de semana prolongado. Foi difcil voc conseguir se ausentar da empresa durante a segunda-feira...
Alguma outra pessoa devia ter tirado a foto, deduziu ele, contemplando o retrato durante bastante tempo. Cindy, ento esguia, ria e o abraava. Estavam dentro de um carro.
Brady a fitou. O que ela lhe havia dito o interessava mais do que as gravuras.
 Trabalho? O que eu fao?
Sentia-se grato pelo servio que Demi lhe dera, mas um sexto sentido lhe dizia que antes trabalhava com a mente, no com o corpo.
A pergunta soava estranha a Cindy. Afinal, o emprego dele, ou melhor, sua carreira, sempre lhe fora to importante!
 Voc  fsico.
 Fsico...
Brady procurou interiorizar o sentido da palavra. Parecia-lhe adequado, mas a lugar algum o levava. Olhou para outra fotografia. Nada. Tambm devia ter sido tirada por outra pessoa.
 E eu gostava? De ser fsico?
Pela primeira vez desde sua chegada ao restaurante, Cindy sorriu ante a ironia da questo.
 Se gostava? Voc vivia e respirava trabalho. 
Sempre lhe pareceu que tinha de mover cus e terra para que Brady conseguisse ter algum tempo livre para um programa, ou ao menos para que no trabalhasse at tarde todos os dias. Sempre ficava imerso nas atividades profissionais e se esquecia das horas.
Brady puxou o lbum para mais perto e passou a folhe-lo sistematicamente, do comeo ao fim.
Exatamente como antes, Cindy animou-se. Contemplou-o em silncio, com medo de formular pensamentos ou mesmo uma orao. Tinha os dedos cruzados. Precisava manter acesa a chama da esperana.
Finalmente, ao trmino do livro, Brady o fechou. Com um suspiro, empurrou-o para Cindy e fez um gesto de negao com a cabea, em resposta ao olhar interrogativo que lhe era dirigido.
 Somos casados?  indagou repentinamente.
Ela negou. Mas planejavam casar-se, lembrou-se com amargura. Os fatos conduziriam a esse caminho. Mas como transformar pensamentos em palavras para esse estranho com o rosto de Brady?
 No.
Mas tinham algum compromisso, concluiu ele. Havia fotografias demais a indicar uma ligao entre suas vidas.
 Divorciados?
Era uma pergunta tpica de Brady. Ele estava por perto, em algum lugar, pensou Cindy tristemente. Cabia-lhe descobrir como o libertar.
 No, no fomos to longe assim.
A frase o intrigou. Seu olhar pousou na barriga dela. No foram necessrias palavras. Instintivamente, o queixo de Cindy se ergueu.
 Sim  sussurrou, incapaz de esconder o que no revelara na ltima noite em que se encontraram. Tinha de lhe contar que a criana que trazia no ventre h oito meses era dele.  O beb  seu.
A resposta o desconcertou. Por que no se casara com ela? Que pessoa teria sido? O tipo egosta, que abandonava uma mulher grvida? A descoberta lhe trouxe um gosto amargo  boca.
Que outros mistrios de seu passado o fariam sentir-se desgostoso consigo mesmo? Pela primeira vez, questionou-se sobre se o acidente no teria acontecido para melhorar sua vida. Uma espcie de segunda chance. Uma maneira de abandonar vcios passados e iniciar uma etapa totalmente nova e promissora.
Mas jamais poderia fazer isso enquanto existissem ns a serem desatados. E o caso com Cindy precisava de uma soluo digna.
 E eu a deixei?
Brady no se lembrava nem mesmo das palavras cidas que haviam trocado na ltima noite, notou ela, abismada. Uma tristeza intensa a invadiu. Fitou-o nos olhos e falou vagarosamente, esperando que as palavras lhe pudessem aclarar as recordaes adormecidas:
 No. Voc apenas saiu de minha casa aps uma... discusso. Para esfriar a cabea. Mas jamais retornou.
Cindy mordeu o lbio. No conseguia se comunicar com ele a contento. Mas no importava. Ao menos nesse instante. Brady estava vivo e era isso que realmente contava.

CAPTULO II
Muitas perguntas se formavam na mente de Cindy, exigindo esclarecimentos. Um turbilho que, associado ao estado emocional em que se encontrava, s a fazia sentir-se mais confusa. Mas, acima de todas as dvidas, pairava uma.
Por que voc no me reconhece? Tantas vezes me disse que eu era a coisa mais importante de sua vida, alm do trabalho... Mas esqueceu a ambos.
O olhar perdido de Brady .a deixava exacerbada. Cruzou os dedos por sobre o ventre, como se o gesto tivesse o poder de amansar-lhe a aflio da alma. No era momento para se despedaar em lgrimas. Tinha a misso de ser a chave do passado dele.
E no poderia abrir porta alguma se continuasse sentindo pena de si mesma. Era Brady quem importava nessa fase ngreme de suas vidas, no seus sentimentos ou algum outro assunto. Apenas Brady.
 H tantas perguntas que eu gostaria de lhe fazer...  Cindy comeou a falar.
Tentava organizar o pensamento, orden-lo. Objetividade e controle eram fundamentais.
Onde estariam as roupas dele? Levava uma mala, quando desaparecera. Lembrava-se de algo? Ento, antes que a ansiedade a invadisse, perguntou:
 Como veio trabalhar aqui?
Dentre tantas indagaes que no sabia responder, esta ele podia esclarecer com facilidade. Olhou para o policial. Nem gostava de imaginar o que teria sido de seu destino se no tivessem se encontrado.
 Gus me trouxe. Demi me ofereceu trabalho como garom at que minha memria voltasse. Estou esperando que isso acontea.  Um sorriso frustrado turvou-lhe o semblante.  Mas at agora nada.
 Demi?  Cindy repetiu.
Ela olhou para o homem uniformizado  sua frente, o corao novamente acelerado em sinal de alarme. Haveria outra mulher? Estaria o novo Brady, aquele que no se recordava dos momentos que haviam partilhado, comprometido com algum especial? Era a primeira vez que tal possibilidade lhe ocorria.
 Minha irm  Gus apressou-se em explicar, notando-lhe o olhar desesperado.
Com um gesto discreto, o oficial indicou a moa de longos cabelos pretos, em p ao lado da caixa registradora. Ela caminhou em sua direo, as longas e bem torneadas pernas fazendo o sangue de Cindy gelar nas veias.
 Esta  minha irm, Demitria Tripopulous  Gus apresentou.  Demi, esta  Cindy Collins, a mulher que colocou o anncio que vov leu.
Demi sorriu calorosamente ao apertar-lhe a mo.
 Prazer em conhec-la. E ento?  a moa indagou, olhando, esperanosa, para os trs. Obviamente queria saber se houvera progressos com Brady.  Novidades?
O irmo fez um gesto de negao com a cabea.
 Ainda no. O mdico disse que essas coisas levam tempo. Algumas vtimas de amnsia recuperam a memria aps poucas semanas da perda. Outras levam anos. Em geral,  questo de meses.  E algumas jamais se curam  Brady complementou.
As palavras do especialista ainda lhe soavam como uma sentena de morte.
 Mas h pessoas que conseguem, no ?  Cindy se interps.
Pouco conhecia a respeito da doena, mas estava bem treinada no quesito otimismo. Sempre tentara incutir essa importante crena em Brady. Quando se pensava de forma positiva, o tempo de espera se tornava menos amargo e at um aprendizado para toda a vida. Ela o encontrara, certo? Metade do caminho, portanto, j havia sido percorrido. Daria conta de prosseguir.
Brady a fitou com uma sensao de dja vu. Sim, parecia ter ouvido algo semelhante antes. Ou talvez fosse a entonao da voz de Cindy. Eram as nicas pistas, entretanto. E j iam embora, deixando-o atarantado. Suspirou.
 Eu acho  disse Demi, animada  que devamos comemorar a descoberta do sobrenome de Brady. O que gostaria de comer e beber?  perguntou a Cindy.  Por conta da casa  acrescentou, ante a ausncia de resposta.
Comida era o ltimo assunto a interessar-lhe. Cindy pressionou o lbum de fotografias contra o peito. Abraar as evidncias visuais de sua vida j a confortava um pouco. Ofereceu um sorriso de agradecimento  moa.
 Acho que no estou com fome agora, obrigada. Observou o restaurante. Apesar de o horrio usual de almoo ter passado, o local estava cheio.
 Haveria um lugar mais tranqilo onde Brady e eu pudssemos conversar?  perguntou a Demi.
O rosto de Brady mostrava toda a apreenso que sentia. Por mais que desejasse saber quem era, no estava preparado para enfrentar a situao dentro de um restaurante quase repleto. Algo lhe dizia que era uma pessoa discreta.
 Minhas tarefas ainda no se encerraram  disse ele.
 Deixe para l  Demi falou.  Gostaria que todos que trabalham aqui fossem to dedicados quanto voc.
Brady no via o fato como dedicao e sim como cumprimento do dever. Era pago para trabalhar, no para ficar sentado. Por mais ansioso que estivesse por descobrir quem na verdade era, no gostaria que isso acontecesse sob olhares curiosos.
Demi lhe deu um tapinha no ombro, retirou-lhe o avental e falou:
 Tarefa encerrada, meu rapaz.
Brady surpreendeu a todos ao vestir de novo o avental. Precisava de uma rotina. Embora simples, necessitava de algum tipo de estrutura em sua vida, para poder reconstruir os cacos que lhe restavam.
 No, ainda no  falou  patroa.  Apenas a acompanharei at a porta   sentenciou para a mulher grvida.
Cindy se sentiu magoada com a atitude distante, mas ao mesmo tempo ficou enternecida. Era bem ao estilo de Brady agir assim, de modo to metdico e responsvel.
Colocou o lbum na bolsa e deixaram o salo. L fora, ficou a contempl-lo em silncio. Como era difcil estarem to prximos e resistir a tentao de abra-lo... Mas precisava se conter. No queria amedront-lo.
De certa forma, a situao quase se assemelhava ao incio do relacionamento. Apaixonara-se por ele  primeira vista. E levara um ano at conseguir convenc-lo de que sentia o mesmo.
 Bem, que tal voc ir para casa, quero dizer, para minha casa depois do trabalho?
Talvez fosse mesmo uma idia melhor. Haviam praticamente morado juntos durante os trs meses que antecederam o desaparecimento de Brady. Poderia no ser capaz de instigar sua memria, mas existia a possibilidade de algum objeto ter esse poder. Ao menos se podia ter esperana. Sempre.
Brady a fitou. Sua testa estava franzida. Fez um gesto de impotncia.
 Eu no sei...
J antecipando suas palavras, Cindy o interrompeu com um gesto delicado.
 Poderia me emprestar seu bloco de anotaes e o lpis, por favor?  Ele obedeceu e a observou escrever o endereo.  Aqui est. Moro neste lugar.
Era esquisito demais lhe dar seu endereo, aps tanta convivncia. Brady a havia ajudado a escolher o imvel. Consultara-o quando da compra da nova moblia, sabendo ser esse o local que um dia viriam a partilhar. Cindy, como sempre, planejara tudo.
Lutou contra a vontade de chorar. Haviam montado um lar juntos, mas ele nem mais se recordava de sua localizao.
Brady olhou para o papel que tinha na mo e murmurou:
 No estou familiarizado com a regio. Gus aproximou-se e pegou a anotao.
  onde eu o encontrei.
Brady no tinha carteira de motorista nem um carro  sua disposio. Demi lhe dera um lugar para ficar, atrs da cozinha, da a pouca urgncia em tirar habilitao para dirigir. Ocorreu a Gus que talvez ele nem mais se lembrasse de como se guiava.
 O que acha de eu passar por aqui mais tarde e lev-lo at a casa de Cindy?
Brady assentiu, grato pela ajuda. Guardou o papel com o endereo.
 Sete horas estar bem para voc?  indagou a ela.
Cindy aquiesceu, os olhos turvados pelas lgrimas. Queria gritar: No, venha comigo agora mesmo. Tenho enfrentado o inferno nesses cinco meses. No posso esperar mais cinco horas!.
Mas nada comentou. Apenas procurou se controlar. Ele era to formal, to polido... Exatamente como quando haviam se conhecido. De volta ao primeiro passo. Mas, se o ganhara uma vez, poderia repetir o feito.
Tinha de faz-lo.
Mordeu o lbio para que parasse de tremer e s depois de alguns segundos murmurou:
 s sete est bom para mim.
A despeito de seus melhores esforos, uma lgrima deslizou pela face. Brady percebeu e se entristeceu. Emocionou-se.
 Hei, pare com isso.
No sabia ao certo o que o impelia a agir, mas instintivamente estendeu a mo e afastou a lgrima do rosto macio. Talvez porque ela parecesse estar to deprimida, e Brady soubesse ser a causa dessa tristeza.
Toc-la mexeu com seus sentidos. A sensao veio e se foi com a mesma rapidez. Desfez-se no ar. Um passo adiante, outro atrs. Quando finalmente retornaria a seu caminho firme para o futuro?
 Talvez minha memria retorne brevemente  disse com voz mansa enquanto retirava um leno do bolso e lhe estendia.
Cindy aceitou. Novamente uma atitude tpica de Brady, pensou. Era o nico homem que conhecia que carregava um leno no bolso.
Balanou levemente a cabea, para dissipar a melancolia. Queria lhe deixar uma imagem positiva.
 No  por isso que estou chorando.  porque estou muito feliz em v-lo vivo  justificou, contendo as lgrimas.
Pessoas ao redor os fitavam, curiosas, percebeu ela. No que se importasse. Mas Brady sempre se incomodou; no gostava de chamar a ateno. Quando, no passado, andavam de mos dadas em pblico, Cindy j considerava o evento o mximo.
Devolveu-lhe o leno e falou, com voz mais controlada:
 Eu o verei s sete horas, ento.
Brady fez um gesto afirmativo com a cabea. Permaneceu imvel, observando-a caminhar, com Gus a ampar-la pelo brao.
Gus destrancou a porta do carro e a manteve aberta para Cindy entrar. Precisava ir embora; estava em seu horrio de almoo. Olhou para a mulher pequenina a seu lado.
 Gostaria de ir para casa?
Era o ltimo lugar para o qual ela desejava ir. Precisava de tempo para colocar os pensamentos em ordem e sempre fazia isso melhor quando rodeada por outras pessoas.
 Brady no  o nico que tem de trabalhar
hoje, no  mesmo? Terry precisa de minha ajuda para dar conta das tarefas do dia  disse Cindy, referindo-se  sua assistente.
Gus no se convenceu de que essa seria a melhor escolha para o momento. Olhou diretamente para o abdmen dilatado. A caminho do restaurante, ela lhe dissera estar com oito meses de gravidez.
 Voc passou por uma emoo muito intensa  ele comeou a falar.
 Tenho vivido sob grande tenso durante os ltimos cinco meses. O que sinto agora  alvio.  Olhou para trs, na direo do restaurante, e se lembrou do modo aptico como Brady a fitara ao se aproximar da mesa.  Ou quase isso  corrigiu-se.
Sentou-se no banco do passageiro da viatura policial e afivelou o cinto de segurana. O simples gesto se tornava mais difcil a cada dia.
Aguardou que Gus ocupasse o assento do motorista antes de prosseguir:
 Acha mesmo que ele vai recuperar a memria? Quero dizer, um dia?
Poderia lidar melhor com as dificuldades vindouras se tivesse esperana de um dia Brady voltar a fit-la como nos velhos tempos.
Gus procurou parecer otimista.
 O mdico disse que h boas chances de isso vir a acontecer.
Mas o doutor tambm explicara outros aspectos importantes que certamente no devia comentar com essa moa naquele momento atribulado de sua vida. J havia se chocado muito, embora tentasse se mostrar tranqila.
Alm do mais, no havia razo palpvel para pessimismo. O anncio por ela colocado no jornal surtira o efeito planejado, o que era de espantar. Tudo, portanto, era possvel.
O mdico. Cindy nunca pensara em perguntar sobre isso antes. Virou-se um pouco de lado, o cinto quase a sufoc-la.
 Voc o levou ao mdico?
Gus aguardou que um caminho passasse antes de pegar a pista da esquerda.
 Sim.
Ele disse isso como se fosse algo usual. Cindy pensou no policial com quem tinha conversado em St. Louis. Aquele que parecera to simptico mas nunca mais entrara em contato.
 Isso no foge s suas tarefas? Gus sorriu levemente.
 Na verdade, no.  um procedimento bastante comum.
 Mas encontrar-lhe um emprego e um lugar para ficar, no.
 Eu me envolvo muito com meu trabalho.
Assim como Brady... costumava fazer.
Devia falar sobre ele no passado? Ou no presente? J que fora encontrado, supunha ser mais adequado colocar os verbos no presente, mas, sob alguns aspectos, ele ainda estava perdido.
Cindy desceu um pouco o vidro da janela. Sua mente fervilhava. Tinha dificuldade em assimilar os acontecimentos recentes. Brady estava vivo.
Fechou os olhos, deixando a brisa acariciar seu rosto. De alguma forma, a vida voltava  normalidade.
Sorriu ao se lembrar da expresso de Brady quando soube em que trabalhava.
 O pessoal do laboratrio ficar feliz em rev-lo.
Gus arqueou as sobrancelhas.
 Quer dizer que o emprego espera por ele, aps todos esses meses?
Cindy telefonara aos Laboratrios Edmond apenas na semana anterior, para saber se algum tinha notcias de Brady. O sr. Waverly estava muito preocupado com o desaparecimento de um de seus melhores cientistas. Assegurou-lhe que o lugar de Brady na empresa ainda estava a disposio. A observao quase a fizera chorar.
 Ele  muito bem considerado na companhia.  extremamente inteligente e dedicado.  Cindy olhava para a frente. O trnsito de incio de tarde se mostrava intenso.  Seu talento est apenas adormecido.
E era tarefa sua acord-lo, pensou ela. Torcia para ser capaz de tamanho feito.
 Brady ficar bom, Cindy.
 Sei disso. Gostaria de lhe agradecer por tudo o que tem feito. Sei que no era sua obrigao. Gus deu de ombros. Simplesmente no fora capaz de ver o caso do homem perdido como mais um entre tantos outros. Como ir para casa em paz, sabendo da agonia por que o sujeito estava passando? A situao enfrentada pelo rapaz poderia acontecer a qualquer pessoa, e todos gostariam de receber apoio.
 No foi tanto assim. Demi o considera um excelente empregado.
 Sim, ele . Sempre foi.  Fez uma pausa, hesitando. Talvez no fosse o momento de perguntar o que tinha em mente, mas precisava falar.
 Sua irm no... quero dizer, ela...
Sua voz sumiu. Gus pareceu ter lido seus pensamentos. 
 No, no est interessada em Brady.  Sorriu.  Demi est ocupada demais em dizer ao restante de ns como conduzir suas vidas.
 Restante?
 A mim e ao grande nmero de primos. Pode ser que um dia seja uma esposa maravilhosa para algum. Mas no ser para Brady.
Cindy relaxou. Era bom ouvir isso.
 Sim, tenho certeza de que ser.
 E ele no se lembra de nada?  a voz incrdula de Nicole Logan ecoava pela floricultura.
Trocou olhares com sua irm Marlene. Ambas haviam conhecido Cindy na sala de espera da obstetra, e participavam do que a dra. Sheila Pollack chamava de Clube do Beb do Ms.
Marlene dera  luz um menino, em dezembro, enquanto Nicole inaugurara o Ano-Novo com gmeos. Cindy teria seu beb dali a aproximadamente trinta dias, em fevereiro.
As duas mulheres passavam pela porta da loja Flores de Cindy exatamente dois minutos antes de ela retornar do restaurante. Atordoadas com os prprios planos para seus casamentos, demoraram alguns minutos para notar a expresso agitada no rosto da amiga.
Quando perceberam, rapidamente lhe fizeram perguntas, antes mesmo que ela tivesse chance de colocar a bolsa sobre uma cadeira. E s duas se uniu Terry. Todas j sabiam a respeito de Brady e de seu desaparecimento.
Cindy fez um meneio com a cabea, para negar a primeira pergunta de Nicole.
 No, ele no se recorda de nada.  Sentia-se meio dopada. Durante o trajeto at a loja, convencera-se de que seu querido namorado logo ficaria bom. Era apenas questo de tempo.   uma situao temporria  comentou, menos resoluta do que gostaria.  Sorriu para Marlene.
 Foi o anncio que voc sugeriu. Eu o coloquei na seo de correspondncia sentimental do jornal explicou, j que a moa parecia no se recordar do assunto.  Foi sorte minha a av de Gus ter lido. Chamou-lhe a ateno a estranha coincidncia de nomes em relao  inscrio na medalha de So Cristvo.
Cindy estava definitivamente indo rpido demais com seu relato, porque Marlene lhe indagou, confusa:
 Gus?
Olhou para a irm, que deu de ombros.
 Medalha de So Cristvo?  Nicole questionou.  De quem era?
Cindy respirou profundamente e comeou a relatar tudo com mais vagar. Tinha o hbito de falar muito depressa. Brady costumava provoc-la, dizendo que ela tagarelava o suficiente para os dois. Ento, podia permanecer calado. Era sua desculpa para se esquivar de conversas mais srias.
 Gus  o policial que encontrou Brady perdido, perambulando pelas ruas, aps ter deixado minha casa naquela noite. Ele nem chegou a viajar para St. Louis.
Ao menos supunha que no, embora sua passagem area tivesse sido utilizada. Sofrendo de amnsia, no teria sido capaz de voltar. Cindy tinha certeza apenas de que seu carro havia sumido, de que a passagem fora usada e de que Brady jamais ocupara o quarto de hotel que lhe fora reservado.
 Oh, mas que situao terrvel ele enfrentou! Voc tambm  Marlene solidarizou-se.
Imaginou como teria se sentido se fosse Sullivan quem tivesse passado por isso. No conseguia, mesmo em pensamento, colocar a aflio em palavras.
 Ele est bem agora  Cindy lhe garantiu.
 Mas sua maleta foi roubada e Brady no levava nenhuma outra identificao, a no ser a medalha que eu dei. Acho que o ladro no percebeu que ele estava com um cordo de ouro, felizmente. E foi pela inscrio na medalha que Brady soube o
prprio nome. Ao menos o primeiro. E o meu.
Respirou profundamente e fechou os olhos. Era de certa forma bom narrar o acontecimento, para poder considerar melhor o que fazer.
 E depois?
 Ento quando Gus, o policial, contou  av sobre a situao de Brady, ela se mostrou to compadecida que no perdeu um s detalhe. Est com noventa anos, mas se lembra de tudo.  Parou de falar abruptamente e mordeu o lbio inferior.  O que no est ocorrendo com Brady.
Nicole ainda tentava assimilar a histria.
 E ele no reconhece voc?
Cindy passou as mos pelos braos, como que para lhes oferecer o conforto e o calor que pareciam ter sumido de sua vida para sempre.
 No.
Marlene a abraou. Seu corao estava apertado pela compaixo.
 O que pretende fazer?
Cindy no queria mostras de simpatia. Ia superar essa fase difcil. No tinha mais dvidas quanto a isso. De algum jeito, Brady voltaria a ser seu.
 Lutar at que ele me reconhea. Eu o irei apresentar a todos e a tudo. Ser reintroduzido ao ambiente em que vivia e reintegrado as amizades do passado.  Com delicadeza, livrou-se do abrao de Marlene.  Algo ter o poder de libert-lo. Apenas preciso descobrir o qu.  Suspirou e foi at o outro lado do balco.  Gostaria
de ter Brady a meu lado, para me ajudar. Sempre foi muito bom em lidar com situaes complicadas.
A ironia do que acabara de dizer a fez sorrir tristemente. Olhou para as mulheres e deu-se conta de como havia se alongado em seu desabafo.
 Tomara.
 Bem, mas vocs no vieram at aqui para me ouvir falar da vida.
 Em parte, sim  Marlene a corrigiu.
 E quanto  outra metade?
Cindy podia antever que alguma coisa estava acontecendo.
 Bem, refere-se ao fato de precisarmos de flores  Nicole comentou, sorrindo.  Olhou para a irm, o prazer estampado no rosto.  Muitas flores.
 O que  msica para meus ouvidos  Cindy brincou.  E qual  a comemorao?
Tinha um palpite forte, mas resolveu aguardar a resposta.
 Um casamento  Marlene falou.
 Dois  completou Nicole.
Cindy olhou de uma a outra. Sabia que ambas estavam interessadas em determinados homens. Haviam conversado bastante a respeito durante a festa de Natal promovida pela dra. Pollack. No suspeitara que os fatos fossem frutificar com tamanha rapidez, entretanto.
 Quando?
 Semana que vem.
 Sei que  terrivelmente sentimental  Marlene comentou  mas sempre sonhei com algo assim.
Nicole virou-se para a irm, parecendo muito surpresa.
 Voc nunca me disse isso.
 Porque voc sempre foi muito cnica. Tinha receio de que fosse rir de mim.
Nicole era a rebelde, enquanto Marlene era conservadora.
 E ento voc fugiu com Craig e presumi ser o fim de meus planos secretos.
Mas a vida, pensou satisfeita, tratara de ajeitar tudo para as duas.
Cindy se concentrou nas amigas. Se permitisse que seu pensamento voltasse para Brady, seria impossvel fazer qualquer coisa a no ser pensar nele.
 Vai se casar com o advogado do qual me falou?  indagou a Nicole.  Aquele que a rodeava a todo instante?
A moa sorriu, recordando-se de quanto se queixara disso. vida com seu antigo marido a deixara muito cautelosa a respeito de quaisquer gestos amigveis. Mas Dennis dera um jeito de quebrar suas barreiras.
 Sim, mas ele no  advogado. Tornou-se investigador do departamento de polcia.
 E o que investigava?
 A mim.
Na ocasio, Nicole ficara horrorizada em descobrir a duplicidade, mas tudo acabara sendo elucidado e Dennis praticamente lhe salvara a vida.
Cindy levou a mo  testa. No estava em condies de compreender mais uma confuso.
 Estou com um pouco de dor de cabea. Voc se importaria em explicar melhor o que acabou de falar?
Era uma histria a ser relatada enquanto se tomava uma xcara de caf em uma fria e preguiosa tarde de inverno. Nesse exato momento, Cindy estava atravessando uma crise enorme.
 Talvez esta no seja a ocasio para lhe contar tudo  Marlene sugeriu.  Poderamos retornar outra hora e...
Cindy apressou-se em sair de detrs do balco e abraou a ambas.
 No, acreditem-me, preciso me manter ocupada. De outra maneira, pensarei apenas na noite que se aproxima.
Nicole levantou as sobrancelhas.
 Noite?
 Gus levar Brady at minha casa hoje, s sete horas. Talvez o local familiar o ajude a recobrar a memria.  Procurou afastar pensamentos negativos.  E ento, onde e quando ser o casamento? Quero dizer, os casamentos? E que espcie de flores preferiro para a cerimnia?
 Bem, eles acontecero em minha casa, no prximo domingo.
Marlene pegou o bloco de anotaes. Trazia tudo registrado em detalhes. Cindy riu.
 Garotas, quando vocs se decidem, no perdem tempo!
 Voc est convidada,  claro  Nicole disse, animada.
 Bem, neste caso, poderei lhes dar um bom desconto.
Cindy andava pela sala de estar, as mos pousadas sobre o ventre. Olhou para o relgio, um gesto que repetia descontroladamente desde sua chegada, por volta das seis horas.
Era surpreendente no ter causado um desgaste na parte central do tapete. H meia hora andava em crculos. A cada som de um carro, apressava-se at a janela, para observar. Mas no havia ningum  sua porta.  medida que os minutos se seguiam, sua agitao aumentava.
Retornando da porta mais uma vez, acariciou a barriga.
 No quero que voc se assuste, Jamie. Desde o momento da descoberta da gravidez, passara a chamar o beb de Jamie. Era um daqueles nomes apropriados a ambos os sexos e, mais importante, era o nome do meio de Brady. Alm, claro, de o achar muito bonito. Sei que pareo uma adolescente aguardando que o primeiro namorado venha me buscar para um passeio, mas h uma razo forte para isso. De certa maneira, este  meu primeiro encontro com ele.
Moveu a cortina e olhou para fora. Ningum na rua. Sua ansiedade a remeteu s inmeras noites em que esperara pelo retorno de Brady, antes de ir para a cama sozinha.
 Temos de fazer com que ele se lembre. Eu no gostaria que seu pai voltasse apenas movido pela obrigao. Eu o quero somente se for por livre e
espontnea vontade. Porque nos ama. Porque se recorda de seu amor por ns. Quero dizer, por mim, j que nada sabia a seu respeito quando partiu.
Cindy sorriu ao sentir o beb se mexer.
 Eu sei, eu sei. Eu deveria ter lhe contado sobre sua existncia. Mas temi fazer a revelao justamente quando ele comentava que no se devia trazer filhos para um mundo como o nosso. Foi por isso que nos desentendemos naquela noite.
Arrepiou-se ao se lembrar das palavras que trocaram na ocasio. Coisas que no mais conseguiria pronunciar porque no as desejara ter dito. Palavras que gostaria de pegar de volta, para jog-las no lixo. Tendia a ser agressiva quando seus sentimentos eram feridos.
 E eu falei o que no devia, assim como ele. Mas voc escutou tudo, no foi?
Fitou o relgio. Eram exatamente sete horas. Onde estaria Brady? Levantou a cabea ao ouvir o som de um carro se aproximando. Respirou profundamente repetidas vezes, soltando o ar aos poucos. No adiantou. Ainda se sentia tensa.
No minuto seguinte, a campainha soou. Seu corao se descompassou, como se estivesse desavisado.
Ele chegara. Finalmente.

CAPTULO III
Gus hesitou em tocar a campainha da casa de Cindy. A tenso e a angstia estampadas no rosto de Brady eram quase palpveis. Precisava dizer algo para acalm-lo.
 Nervoso?
 Sim.
Sua mente estava vazia. No se lembrava de nada. As mos encontravam-se midas. Queria tanto ter uma sensao de familiaridade... Mas temia que isso nunca viesse a acontecer.
Gus lhe deu um tapinha no ombro, em sinal de camaradagem.
 Eu tambm me sentiria assim, se estivesse em seu lugar.
 Claro.
O policial nem conseguia imaginar como seria nada saber a respeito de si mesmo. Ignorar, por exemplo, quem seria Demi.
 Suponho que seja algo parecido com jogar-se de um avio com os olhos vendados.
Brady considerou a comparao durante alguns segundos. Sempre era muito cuidadoso com as palavras, examinando-as com extrema cautela antes de as tornar suas. Chegou  concluso de que a anlise de Gus era muito boa e precisa.
 Tem razo.  Agarrou a maaneta, ansioso por reconhecer alguma coisa.  No sei se o cho me trar segurana ou ser responsvel por eu me espatifar contra ele  completou.
 Isso depender do pra-quedas...
 Sim. Ento, vamos ver se o pra-quedas se abre. V em frente, toque a campainha.
Gus obedeceu. Aps alguns segundos, a porta se abriu e revelou Cindy. Ela parecia sem ar. Seus olhar mostrava medo, Brady analisou. Embora estivesse sorrindo, sentia insegurana. O que no deixava de ser um trao a uni-los. E de alguma maneira isso o fez sentir-se um pouco melhor.
Cumprimentou-a, os ps j sobre o capacho da entrada.
 Ol.
 Ol.  Somente aps alguns instantes Cindy deu-se conta da presena de Gus, e o saudou com um gesto de cabea. Retrocedeu para lhes dar passagem.  Entrem.
Ela segurava a maaneta com tamanha fora que seus dedos pareciam ter se colado ao metal. Experimentou uma agoniante sensao de pnico. Tudo era to esquisito! Brady fora convidado a visitar a casa que havia sido mais seu lar que o prprio apartamento onde oficialmente habitara!
Repetindo mentalmente a necessidade de se mostrar animada, plantou um sorriso na face e fechou a porta. Observou como Gus ficava diferente quando  paisana. Passava menos autoridade, era isso.
Brady vestia a mesma camisa de quando estivera no restaurante. Azul. A cor preferida dele. Teria noo disso?
Havia ensaiado diversas vezes um dilogo, visando a facilitar o encontro. Formulara perguntas perfeitas. Mas, nesse exato momento, no se recordava de nenhuma. Pela primeira vez em sua vida, no sabia o que dizer.
Desesperada, voltou-se para Gus.
 Obrigada por t-lo trazido.
O policial lhe sorriu e contemplou ao redor. Era uma bela casa. Muito mais sofisticada do que a sua.
Cindy prendeu a respirao ao observar Brady se mover pela sala de estar. Quase podia adivinhar-lhe os pensamentos. Armazenava informaes, catalogava e as colocava em ordem. Podia no se lembrar do cotidiano de trabalho como cientista, mas sua mente no havia se esquecido de tudo, constatou.
Ele parou diante do enorme sof em semicrculo que dominava o ambiente. O couro branco o agradava, mas no tinha opinio semelhante acerca do quadro pendurado na parede detrs do mvel.
 Sua casa  muito agradvel  comentou por fim.
Cindy postou-se a seu lado, diante do sof. Queria abra-lo, mas se conteve. Um pequeno passo por vez, aconselhou-se.
 Voc me ajudou com a decorao.
 Entendo.
Ela percebeu o jeito como Brady olhava para a pintura, como se tentasse decidir se gostava ou no. Ou talvez estivesse procurando lembranas. O corao de Cindy disparou.
 Discutimos muito sobre esta obra.  Brady levantou as sobrancelhas e a fitou. Cores fortes se misturavam em traos confusos e indefinidos.  E eu venci  complementou, faceira.
Ele assentiu. Fazia sentido. No se sentia atrado por aquela manifestao artstica.
O nada saber a respeito de si mesmo era sua grande dificuldade cotidiana. Teria segredos? Seria amigvel ou recluso? Odiava sentir-se assim.
Mais do que tudo, detestava no se recordar de Cindy e da criana que ela trazia no ventre.
  bastante colorido  murmurou, enigmtico.
Cindy agarrou-lhe a mo, excitada. Pego de surpresa, ele arregalou os olhos, como a pedir uma explicao.
 Voc disse exatamente isso!  Rindo, ela olhava para os dois homens, parecendo no se conter de tanta felicidade.  Foi exatamente o que falou
quando desistiu de me tentar convencer a no comprar o quadro!  Ao perceber que lhe apertava a mo, ela a soltou, sorrindo tristemente.  Sempre teve um modo todo especial de argumentar.
Olhou para Gus e sentiu-se grata por sua muda manifestao de apoio. Em seguida o policial indagou a ambos:
 Gostariam que eu ficasse?
Cindy ponderou que talvez Brady necessitasse de sua presena. Ela, entretanto, preferiria que ficassem a ss, para conversar sobre detalhes ntimos que fizeram parte de suas vidas.
 No, obrigada. Estou certa de que tem muitos compromissos. J abusamos demais de sua gentileza.
A sua maneira, ela tomava a dianteira, observou Gus. Assim como sua irm. Como seu pai   costumava chamar Demi? A borboleta de ferro, isso mesmo. Parecia que o ttulo se ajustava a mais de uma pessoa.
Olhou para Brady, que lhe fez um gesto de concordncia.
 Ento eu passarei por aqui mais tarde para busc-lo  prometeu.
Cindy no queria que Brady fosse embora. Acabara de encontr-lo. Talvez estivesse sendo tola, mas, na ltima vez que ele partira, ficara sem v-lo por cinco longos meses. Tinha medo. Temor de observ-lo passar por aquela porta novamente.
 Talvez fosse melhor que ele passasse a noite aqui. Voc sabe, acordar em um local familiar poder ser estimulante para sua memria.  Os olhos acinzentados estavam repletos de esperana. E de apreenso.  H um quarto de hspedes...
Estava abarrotado de pertences de Brady, retirados de seu apartamento antes que a justia pudesse confisc-los. Pagara ao dono do imvel metade do valor de um aluguel, para que a deixasse entrar.
Brady parecia incerto quanto ao que fazer. No lhe era confortvel ficar a ss com uma mulher que no conhecia. Trocou olhares com Gus, mas no conseguiu ler os pensamentos do outro homem.
 Vamos ver.
O policial consultou o relgio de pulso.
 Estarei de volta em algumas horas. Tudo bem?
Teria de ser assim. Cindy assentiu. Acompanhou-o, as pernas trmulas. Apesar do sorriso que lhe deu, sentia-se atordoada.
Fechada a porta, permaneceu ali parada durante um minuto. Precisou de bastante coragem para se virar e encarar Brady.
 Gostaria de tomar uma xcara de caf?  Antes de escutar a resposta, completou:  Voc sempre adorou que fosse bem preto.
Ele pensou no caf que tomara no restaurante. Instintivamente, aceitou a sugesto.
 Est bem.
Cindy virou-se para ir at a cozinha. Parou quando viu que no era seguida.
 Por que no vem comigo?
Brady sempre apreciara sentar-se  mesa do ambiente acolhedor. A cozinha, falava, era o corao de um lar. No o quarto ou a sala de estar, como tantos achavam. Pois era nesse ambiente que as pessoas se alimentavam e saudavam o dia durante a leitura do jornal matinal.
Quantas vezes ouvira isso de seus lbios? Inmeras.
 Est bem.
Brady a seguiu pela sala de estar, passando pelo pequeno hall adornado com fotografias de pessoas que desconhecia. Parou diante da ltima, como se houvesse algo especial ali registrado.
 O que foi?  ela perguntou.
Estava na ponta de sua lngua o nome do jovem retratado, mas ele se conteve.
 Eu no sei. Achei... deixe para l. No o conheo.
 Era seu pai  revelou-lhe.  E o garotinho  voc.
A maldita cortina sobre seu passado no se dignava a subir.
 Meu... pai?
Ela antecipou o trmino da questo:
 Faleceu h alguns anos. E sua me se foi quando voc tinha quinze anos.
 Ento... estou sozinho no mundo? Cindy negou com um gesto de cabea.
 No. Voc tem a mim.
Fez um aceno para que Brady entrasse na cozinha. Observou-o vistoriar o aposento. Seus olhares se encontraram e ela notou a inexistncia de boas novas.
 Est tudo bem.
Obrigou-se a imprimir um tom animado  voz, apesar de ter ficado decepcionada. Para disfarar, foi at a cafeteira e a ligou.
Ele considerou, intrigado, que j devia ter presenciado dezenas de vezes uma cena como essa. Mesmo assim, parecia-lhe tristemente indita. Se Cindy fizera mesmo parte de sua vida, como era possvel que tivesse se esquecido de seu semblante, de sua casa e dos momentos que dividiram?
Tudo o que precisava era de mais tempo, consolou-se. Passara cinco meses procurando por algum de seu passado e, agora que achara, nada havia mudado, a no ser seu nvel de frustrao. Era uma sensao quase insuportvel.
 Passei a tarde toda tentando me recordar de voc  confessou.
 Nada conseguiu, no ?
 No  ele confessou em meio a um suspiro.  Embora seu perfume...
Cindy parou, uma xcara de caf em cada mo.
 Sim?
A nica palavra foi dita com ansiedade. Brady desejava, pelo bem de ambos, poder lhe revelar algo positivo:
...parea-me familiar.
Mas o fato podia ter outra explicao, bem menos esperanosa. Talvez o tivesse sentido no restaurante onde trabalhava. O que descaracterizaria o progresso.
Cindy colocou as xcaras sobre a mesa e aproximou-se.
 Voc me deu de presente de aniversrio, duas semanas antes de desaparecer.
Ele fez uma pausa, o olhar pousado no lquido fumegante e escuro. Experimentou.
 Est gostoso.
 Eu sei  respondeu ela, sorrindo.  Voc me ensinou como preparar um caf perfeito.  Aproximou a cadeira da dele e comentou:  Eu costumava dizer que a bebida ficava to forte que seria capaz de com-la com garfo e faca.  Seu sorriso era nostlgico, como se estivesse falando de outra pessoa.  Mas voc contra-argumentava que, se o caf no fosse forte, no haveria sentido em tomar.
Brady contemplou a lmpada fluorescente que iluminava o cmodo. A maneira como ela falava era amorosa, saudosa. Teria sido um homem carinhoso?
 Como eu sou, Cindy? Como ser humano?
Gostaria de receber uma resposta absolutamente sincera e direta. Sem meias-palavras; apenas a verdade. Mas sabia que a tarefa no era exatamente fcil.
 Bem, voc  bom e gentil. Um pouco teimoso s vezes, o que  uma qualidade...  Cindy pensou na ltima discusso que travaram e sentiu um arrepio. Ao olhar para trs, constatava que a culpa havia sido de ambos. Mas isso no mudava os acontecimentos posteriores.  ...na maioria das situaes  acrescentou.
O comentrio poderia ter descrito qualquer outra pessoa, Brady concluiu. Depositou a xcara sobre a mesa e apoiou a face nas mos.
 Sei.
Atnita e querendo confort-lo, Cindy ps a mo em seu ombro.
 No fique assim  implorou.
No suportava v-lo to perdido e distante.
A presso em seu ombro lhe era conhecida, notou ele, mas era provvel que o toque de carinho de qualquer outra mo lhe tivesse despertado a mesma sensao.
Quando a fitou novamente, embaraado pelo que considerou ser um lapso, identificou genuna preocupao nos olhos acinzentados. Isso o fez soltar palavras que, em situaes tranqilas, teria sido capaz de guardar para si:
 No faz idia de como me sinto. A falta de memria  cruel, dolorosa. Eu gosto disso? Fao aquilo? Aprecio morangos?
Cindy sorriu.
 Sim, e muito. E, quanto ao restante, logo voltar  sua mente, acredite.
Tem de retornar, rezou, aflita.
 Ser?
Brady no se sentia to otimista quanto ela e Gus. Cindy sentiu um desejo intenso de arrancar o vu que obscurecia as lembranas do homem que amava. Tinha fora de vontade para o ajudar, mas no as armas necessrias. Ainda.
 D tempo ao tempo. Enquanto isso, enxergue os fatos como uma grande aventura.  Sabia que exagerava, mas tinha de falar alguma coisa. Vislumbrara desespero nos olhos dele, e isso lhe dilacerava o corao.  H muitas sensaes que ter o privilgio de experimentar pela primeira vez... novamente.
 Voc  uma otimista, no ?
 Sim.
 Pois no acho que eu seja.
Disse a sentena como se fosse uma revelao. De certa forma, era.
 Normalmente, no  mesmo  concordou ela.   muito pragmtico.
Brady assentiu vagarosamente. Isso lhe soava bem. O que aprendera sobre sua pessoa nos ltimos cinco meses apontava nessa direo.
 Talvez esteja certa  falou a Cindy.   possvel que meu passado um dia se aclare.
 Tenho certeza que sim. Absoluta.
Ele observou a mo delicada. Havia algo de reconfortante no toque. Mas a percepo durou pouco. Esvaiu-se como um sonho que se dissipa, embora se tente desesperadamente resgat-lo ao acordar.
 E como caminhar por entre neblina. Assemelha-se ao incio de tarde em Londres.  Olhou para Cindy to logo acabou de pronunciar as palavras.  Como eu saberia disso?
As batidas do corao dela se aceleraram. Um pedao do quebra-cabea estava se ajustando. Acidentalmente, mas estava. O sorriso em sua face era radiante.
 Porque voc esteve em Londres. Na ltima primavera. O laboratrio o enviou para l, a fim de participar de uma conferncia importante.  Durante todo o trajeto at o aeroporto, ele se queixara de ter de se apresentar em pblico.  Voc no estava com vontade de ir.
 Imagino.
Isso a agradara sobremaneira, principalmente ao ouvir de seus lbios que sentiria muita saudade. Era raro Brady ser to sentimental.
 Leu um texto acerca dos progressos mais recentes no ramo da indstria tica.  Observou seus olhos se arregalarem. Um brilho diferente pairava nos dois lagos azuis.  Voc se lembra!
Era uma afirmao.
Brady balanou a cabea, como em transe.
 De alguma coisa.  Baixou as plpebras, para tentar juntar fragmentos que danavam em sua mente. Sentiu a mo dela apertando a sua.
 Eu estava em p diante de muitas pessoas e lia... algo.  Abriu os olhos. No havia mais nada.
 Foi... meio desagradvel.
Ele estava bem, tranqilizou-se Cindy. Aproximava-se da superfcie. Tudo entraria nos eixos. Lentamente, deixou escapar o ar que retinha nos pulmes.
 Voc sempre detestou falar em pblico. 
Devia ser mesmo verdade, ponderou Brady. No gostava de atrair as atenes. Voltou a observar a cozinha. O olhar esperanoso de Cindy s lhe aumentava o desespero.
 Se pude me recordar daquilo, por que no me lembro do restante? Deste lugar, por exemplo? Ou de voc?  Seu olhar pousou na barriga proeminente.  Ou do beb?
Cindy mordeu o lbio, incerta do que dizer.
 Posso responder  ltima das questes.  porque voc desconhecia a existncia da criana. Eu ia lhe fazer uma surpresa.
No conseguiu lhe contar sobre a discusso. Na ocasio, estivera prestes a lhe revelar que seria papai quando passaram a travar uma agressiva conversa sobre a moralidade de colocar uma criana num mundo repleto de discrdia e doenas. Talvez, quando ele recobrasse a memria, essa parte ainda lhe permanecesse incgnita. Era sua esperana.
Brady a fitava, aguardando que completasse seu pensamento.
 Mas jamais tive oportunidade de lhe contar.
Como devia ter sido difcil para Cindy, pensou ele. As datas das fotografias daquele lbum revelavam que j estavam juntos h um bom tempo.
 Eu morava aqui com voc?
 Chegamos a conversar a respeito de sua mudana, sim. Para todos os efeitos, voc praticamente vivia comigo.
Suas roupas ocupavam metade do closet, seu robe ainda estava ao lado do dela, no cabide atrs da porta do banheiro da sute. Mas nunca a pedira em casamento.
Deu de ombros. Se o queria de volta, que fosse por intermdio da mais pura verdade.
 Voc no parecia disposto a assumir um compromisso mais srio.
 Onde eu morava?
 Em um apartamento em Newport Beach. Mas, como sumiu, o dono precisou alug-lo para outra pessoa.
 E minhas coisas?
 Esto comigo. Coloquei alguns objetos em um armazm que aluga salas para esse fim. O restante est aqui. No quarto de hspedes.  Levantou-se.  Gostaria de dar uma olhadela?
 Sim, gostaria.
Brady queria ver tudo que pudesse libert-lo dessa priso.
 Est bem.  por aqui.  Cindy tomou-lhe a mo automaticamente, mas ento a soltou ao ver seu olhar de curiosidade.  Sinto muito.  o hbito.
Foi a vez de Brady a surpreender ao repetir seu primeiro gesto.
 Ento o mantenha. Continue com tudo que costumava fazer comigo antes de eu... ir embora. Quero minha vida de volta...
Parou subitamente de falar porque se esquecera do nome dela. Em sua agitao, simplesmente no conseguia lembrar qual era.
 Cindy  murmurou pacientemente.  Cindy Collins.
 Quero minha vida de volta, Cindy  disse-lhe com ardor.  E no poderei conseguir isso sozinho.
A afirmao era uma grande novidade, pensou ela. Brady nunca lhe pedira ajuda. Apertou-lhe os dedos.
 Farei tudo o que puder  prometeu.  Sabe disso.
 No  Brady a contradisse enquanto era conduzido ao quarto.  No sei, no.
Cindy riu.
 V? J comea a agir  velha maneira.
 Como assim?
Ela livrou a mo e lhe acariciou a face levemente. Adoravelmente.
 Brady Lockwood  um homem muito, muito racional. s vezes, essa qualidade beira o absurdo.
  mesmo?
Sozinha em seu quarto,  noite, revivera cada momento que haviam partilhado. Todas as falhas dele se converteram em virtudes, j que o tempo abrandava raivas e desavenas. Jurara a si mesma que, se Brady um dia retornasse, seria mais paciente. E exigiria dele mais dedicao ao relacionamento.
 Tudo tem comeo e fim para voc. Uma razo de ser.
Uma recordao fugaz o tomou. Mas no tinha forma, substncia. Deixou que fosse embora, sabendo que, quanto mais tentasse, mais o sentido lhe escaparia.
 E voc no  assim?
 No. Tendo a ser impulsiva, temperamental. Isso o deixou maluco algumas vezes  comentou, sorrindo.
 Ento por que estvamos juntos?
Cindy parou diante da porta do quarto e se virou para fit-lo. A pergunta era to de acordo com a personalidade de Brady... Questionava sentimentos com a mais pura das lgicas.
 Porque nos amvamos. Ele se sentiu acuado.
 Eu gostaria de poder dizer...
Cindy levou o dedo a seus lbios, para o fazer calar-se. No queria ouvir que ele no a amava mais. Apesar de compreender sua confuso, seria doloroso demais sentir o peso dessas palavras.
 Voc dir  jurou com uma paixo que o atarantou.  Um dia.
Cindy abriu a porta e afastou-se para deix-lo entrar. Brady, entretanto, permaneceu parado.
 Tem mais certeza disso do que eu.
Ela deu de ombros, aparentando segurana.
 S os tolos tm pressa...  comeou a recitar uma das frases preferidas de Brady.
 Enquanto os anjos so cautelosos  complementou ele automaticamente e ento a fitou, incrdulo.
 Viu s? Voc est a, sr. Lockwood. Est neste quarto, buscando meios de escapar. E eu o conheo. Haver de achar um buraco que o levar  liberdade. Ser onde sua obstinao se tornar mais ferrenha e eficaz.
 Voc tambm  obstinada? Ela entrou no aposento.
 Voc sempre disse que sim. At demais.
timo, pensou Brady. Porque ambos necessitariam de todo estoque de determinao que pudessem encontrar.
 Ento no desista de mim, Cindy.
As sobrancelhas dela se ergueram, em sinal de espanto. Desistir? Logo nesse momento, em que o havia achado? De jeito nenhum!
Impulsivamente, fez o que desejava desde o instante que o reencontrara. Colocou os braos ao redor de seu pescoo.
 No tenho a menor inteno de fazer isso, entendeu?
Brady percebeu que passou a agir movido pelo instinto. Instinto que tinha muito mais memria do que ele. Abraou-a enquanto se abaixava para unir seus lbios.
Foi um beijo repleto de gratido e curiosidade. Necessidade e descoberta. Beijou-a porque lhe pareceu ser o melhor a fazer, e porque desejava muito saber como seria.
Uma atrao indescritvel o impeliu para Cindy, apesar de conscientemente julg-la uma desconhecida. Talvez porque estivesse sensibilizado com a tristeza que viu nos olhos acinzentados. Atordoado pelo modo como a boca rosada sorria. Ou simplesmente quisesse ter de volta o que um dia fora um grande amor.
Cindy quase chorou quando sentiu a maciez dos lbios amados nos seus. Conseguiu se controlar e passou a se dedicar s deliciosas sensaes que imediatamente invadiram cada clula de seu corpo.
A qumica que os unia estava ali, a despeito de o beijo ter se iniciado de maneira gentil e educada. Logo em seguida, o inevitvel aconteceu: o pavio aceso lhes incendiou o sangue.
Como podia no se lembrar dessa mulher? Brady se inquiria, atnito. Sentia-se entorpecido de prazer.
Estava tudo presente, adormecido apenas, Cindy concluiu, feliz. O fogo, as emoes, tudo. A mente de Brady podia permanecer na penumbra, mas sua alma ainda estava ali. E pertencia a ela.

CAPTULO IV
Pareceu ter se passado toda uma doce eternidade at Brady finalmente se afastar. Assustado com o impacto das emoes que ainda faziam seu corpo fervilhar, ele permaneceu arfante e imvel, estudando o rosto de Cindy.
O beijo havia sido um ato instintivo, sem premeditao, como respirar. Apenas... acontecera. Ao perceber que estava prestes a beij-la, ele previu que seria agradvel, interessante. Bom. S no esperava ser arrebatado por um turbilho to forte.
 Puxa!  murmurou, fazendo esforo para respirar com alguma normalidade. Balanou a cabea, para tentar aclarar as idias.  Eu poderia jurar que homem algum se esqueceria de algo assim.
Cindy mal podia conter a felicidade. Sem dvida, ele beijava como o velho Brady. Algumas partes de seu corpo fenomenal deviam estar operando em piloto automtico, concluiu, divertida. Mais do que nunca se convenceu de que o pleno retorno das lembranas era apenas questo de tempo.
  mesmo? Ento... voc se lembra, ao menos um pouco, dessas sensaes?
Brady queria dizer que sim apenas para v-la sorrir novamente, mas no se permitiria mentir. Pressentia no ser bom faltar com a verdade. No seria justo.
 No.  Com gentileza, afastou-lhe uma mecha de cabelo. A intimidade do gesto lhe fazia bem.  Mas vou gostar de trabalhar arduamente para me recordar de cada detalhe.
Cindy prendeu a respirao. A ternura do carinho e da observao lhe eram estranhas. Brady no fora to contundente no primeiro encontro. Quem sabe esse novo homem se convertesse em uma soma das qualidades do antigo com as do que acabara de a beijar...
De certa forma, estava se apaixonando por ele novamente.
 Gostaria de dar uma olhadela em suas coisas agora?  Brady aquiesceu, mas no a seguiu quarto adentro. Ela o fitou, confusa.  O que foi?
 E... se eu no me lembrar de nada? Se olhar para tudo e... nenhum reconhecimento me vier  cabea?
Seria to bom se tivesse o poder de afugentar o medo que o angustiava...
 Voc ter de volta seu passado, confie nisso. Se no for hoje, ser amanh, ou no dia seguinte. Estar caminhando pela calada e ento, subitamente, tudo passar a fazer sentido.  A intensidade de seu olhar o desconcertou.  Eu lhe prometo  acrescentou.
 Poderia at me garantir, aposto  brincou ele, fugindo da seriedade imposta pela situao.
 Poderia mesmo  respondeu ela sem hesitar.
 E como?
No existiam palavras capazes de explicar o que se passava nas profundezas de sua alma de mulher. Mas, assim como o sol acendia o planeta todas as manhs, a luz voltaria a invadir a mente de Brady. Seu amado. O homem da sua vida. Haviam partilhado momentos preciosos demais. Os cus no permitiriam que isso se perdesse em uma nvoa eterna.
 No sei, mas estou convicta de que poderia. Brady riu.
 Tem razo. Voc no prima muito pela lgica. Ela deu uma gostosa gargalhada. J ouvira isso dezenas de vezes. Era bom instig-lo a dizer coisas to familiares.
 Venha ver seus objetos pessoais. E no se cobre reconhec-los. Ter todo o tempo do mundo para isso.
Brady passou s duas horas seguintes no quarto com Cindy. Os objetos ali guardados, entretanto, a nada o remetiam. Eram-lhe to estranhos como a casa... e aquela linda mulher.
Alguns poucos itens lhe causaram uma sensao especial, mas por demais fugaz para que conseguisse concluir algo a respeito. Tudo muito vago e sem nexo. Como o suter que, segundo ela, sempre fora seu favorito.
Cindy pegou o livro de mistrio que Brady estivera lendo na semana de seu desaparecimento. Mas o objeto no foi de grande utilidade.
  cedo demais para esperar alguma recuperao.
Cindy apoiou ambas as mos na cama para conseguir se levantar. A cada dia, movimentos simples se tornavam mais difceis.
Brady ergueu-se e automaticamente a amparou. 
 Eu a ajudo.
 Obrigada.
Relutante, ele soltou-lhe o brao. Ia dizer alguma coisa quando a campainha tocou.
  Gus.
O pavor tomou conta de Cindy, que agarrou Brady antes que sasse do quarto.
 Gostaria de pernoitar aqui hoje?  Sua voz denotava a ansiedade que sentia, mas no havia tempo para disfarces. Nem, talvez, necessidade.  Neste cmodo, com seus objetos pessoais...  possvel que tudo lhe parea mais claro amanh cedo.
Fazia sentido, mas ele no poderia ficar.
 Preciso trabalhar.
At que recuperasse o mundo ao qual perdera, queria se manter naquele que aprendera a conhecer.
Mas Cindy no estava disposta a aceitar um no como resposta. Seria insuportvel v-lo ir novamente, como naquela fatdica noite.
 Eu o levarei mais tarde.
 No a quero incomodar, Cindy.
Quando mais uma vez a mo pequenina agarrou seu brao, Brady se surpreendeu com a fora do aperto. E da expresso de seu rosto.
 Ser que voc ainda no entendeu?  Aps o beijo que partilharam, como ele poderia dizer uma coisa daquelas?  No somos apenas amigos trocando formalidades. Fomos amantes  falou, quase aos prantos, e ps a mo dele sobre a barriga.   seu beb quem est aqui. Como pode achar que estaria me incomodando? Isso talvez acontecesse se um parente distante decidisse passar dois meses em minha casa sem ser convidado. Mas jamais me sentiria invadida pela pessoa com a qual planejo construir meu futuro.
 E ns estvamos planejando isso?
 Sim.
Estava subentendido, embora no tivesse sido manifestado em palavras. Ao menos ela achava que sim. Iam morar juntos. E fora por isso que ficara to aborrecida quando da discusso a respeito de trazer um filho ao mundo.
Brady gostava de crianas. Havia sido natural ela concluir que adoraria ter um beb.
A campainha voltou a soar. Brady olhou para a porta do quarto e ento para Cindy. A mo dela ainda segurava seu brao. Talvez estivesse certa. Estar cercado de objetos relativos ao passado poderiam ajudar a trazer as lembranas. E, mesmo que de nada se recordasse, parecia ser muito importante, para ela, que ficasse.
 Est bem. Ficarei.
 timo  suspirou ela, aliviada.  E amanh  tarde, depois do trabalho, eu o levarei at o laboratrio. Pode ser que algo ali lhe parea familiar.	
Cindy sorriu, radiante, e foi abrir a porta para Gus.
Brady costumava acordar cedo todas as manhs e ficar alguns minutos tentando descobrir quais teriam sido suas atividades cotidianas no passado. Naquela manh, entretanto, abriu os olhos e encarou, confuso, o teto do quarto.
Vagarosamente, passou a fitar o que havia a seu redor. O zumbido que sempre o incomodava nesse horrio lhe trouxe a inevitvel sensao de desorientao.
Apoiou-se nos cotovelos. Esse no era o quarto que ficava atrs da cozinha. No estava no restaurante Aphrodites.
Onde se encontrava?
Sentou-se e novamente e contemplou o ambiente, dessa vez com mais ateno. Havia moldura de gesso no arremate das paredes, junto ao teto.
Paredes... azuis. Tinta azul. Uma lata cheia at a boca e sapatos sujos. No, sapatos no, tnis. E novos. Risos. Gargalhadas. Podia ouvir o som alegre e cintilante, senti-lo...
E ento... tudo se foi.
Droga, por que esses relances no duravam mais do que curtos segundos? Podiam ficar ao menos tempo suficiente para que fizessem sentido! Iam embora quase no instante em que ele se dava conta de sua presena.
Respirou profundamente e passou as mos pelos cabelos. Mais um dia de suposies se iniciava, resignou-se. O barulho em sua cabea persistia. Transformou-se em outro som. Batidas  porta. Algum batia  sua porta. Cindy.
 Sim?
Era melhor ser prudente. Um passo por vez, aconselhou-se. Era to difcil. Queria sempre correr, apressar tudo. Suspirou.
 Brady?  Cindy. J acordou?
A voz suave assemelhava-se ao canto de pssaros.
 No, estou dormindo  brincou. Estava ansioso por v-la e ser brindado por aquele sorriso maravilhoso.  Sim, j acordei.
Assim que acabou de pronunciar as trs palavras, a porta se abriu e revelou Cindy em um robe de seda creme. Seus cabelos estavam meio despenteados e ela cheirava a sabonete infantil.
 S estava dando uma verificada  admitiu.  Pensei ter sonhado as boas novas que agora confirmo. Sua volta.
 Bem, pelo menos fisicamente eu estou aqui. Brady ps as pernas para fora da cama e quase se levantava quando se lembrou de que estava nu. Rapidamente, puxou as cobertas sobre o corpo. Cindy sorriu ante a repentina reao.
 Eu j o vi despido, sabia?
Sua mo sobre a barriga intensificou o comentrio.
 Sim  concordou ele , mas...
Ela gargalhou. Dormir completamente nu era algo novo. Brady tinha o hbito de usar pijamas. Algumas mudanas pareciam ter vindo para melhor.
Decidiu sair do quarto para deix-lo vestir-se. Caminhou at a porta.
 Vou preparar nosso caf da manh. Torradas de po francs.
Sabia quanto ele adorava.
 Apenas algumas torradas e caf, por favor. No como muito de manh.
 Antes voc gostava de se alimentar muito bem ao acordar. Mas farei como me pediu, est bem?
 No.  Ele queria fazer tudo  moda antiga, para despertar sua mente.  Faa  sua maneira.
 Que  sua tambm  falou ela, antes de fechar a porta.
Brady j se punha de p quando a porta novamente se abriu e o fez colocar o lenol estrategicamente sobre o corpo.
 Costuma agir assim com freqncia?  indagou, exasperado.
 No, mas acho que deveria. Pode tomar banho em meu banheiro. Prometo no entrar.
Brady dirigiu-se  cozinha quinze minutos depois, os cabelos midos encaracolados na altura do pescoo. Cindy resistiu  tentao de passar os dedos pelas mechas.
O aroma de torradas frescas era de avivar o apetite. Notou uma expresso esquisita nela.
 O que foi?
 J o vi descalo nesta cozinha, em uma manh assim, centenas de vezes.  muito bom t-lo aqui novamente.  Pegou dois pratos e os ps sobre a pia. Com uma esptula, dividiu as torradas.  Encontrou tudo de que necessitava no banheiro?
 Sim, havia um robe...
  seu.
Brady olhou para o relgio de parede.
 J so quase sete horas! Tenho de estar no restaurante s oito. Demi serve um suntuoso caf da manh.
A despeito das garantias dadas por Gus, Cindy no se furtou a pensar o que mais a moa lhe teria servido durante esses cinco meses.
No! admoestou-se. No devia dedicar tempo a essa espcie de divagao, que nenhum proveito traria. Teria de passar por cima do cime e se concentrar em superar esse momento desafiador de suas vidas.
 Estarei pronta rapidamente.
Com um prato em cada mo, aproximou-se. Brady olhou, em dvida, para o robe dela. Ainda nem estava vestida. Cindy leu seus pensamentos.
 Sou muito gil quando necessrio. Isso sempre o surpreendeu.  Sorriu.
O dia havia sido um dos mais longos desde seu vagar a esmo pelas ruas da cidade. Escurido. Vazio. Como os recantos de sua mente.
Cada hora se desenrolara com agoniante lentido, embora tivesse trabalhado no restaurante, quase sem intervalo, das oito da manh as quatro da tarde, quando Cindy foi busc-lo.
Na verdade, aguardava pelo retorno dela praticamente desde o instante em que deixara seu carro. O que era, no mnimo, perturbador.
Alm disso, tambm o deixava ansioso a recente descoberta de sua real profisso. A palavra fsico perambulava em sua mente, a procurar eco. Explicaes.
J dentro do carro de Cindy, fitou-a durante o trajeto at os Laboratrios Edmond. Centenas de perguntas rodavam em sua mente.
 Por que guardou minhas coisas?
Mas que pergunta mais estranha, ponderou ela.
 Bem, no poderia deixar que a jogassem fora. Brady fazia o possvel para compreender.
 Mas voc achava que eu havia lhe dado um fora. E a todos  emendou, procurando o sentido daquela atitude.  Afinal, naquelas circunstncias, seria natural uma mulher se desfazer de todos os objetos de quem a abandonara.  Voc...
no estava com raiva?
 A princpio, sim. Mas ento considerei no ser uma caracterstica de sua personalidade partir sem dar satisfaes a ningum, no importava quo irado estivesse.
 E por que eu estava bravo?
Ela se manteve em silncio por alguns minutos. A bvia dificuldade em achar palavras adequadas juntava-se  necessidade de se concentrar nas placas de sinalizao. Havia feito esse caminho poucas vezes.
 Lembra-se da discusso que tivemos naquela ltima noite?
 Sim.
 Bem, na verdade, foi mais do que um leve desentendimento  declarou com cautela.
 E qual foi o motivo?
 Nada especfico  mentiu, rezando para que Brady no se lembrasse do incidente mesmo aps a recuperao da memria.  Aquelas discusses que surgem do nada.
Ele tentou visualizar uma briga entre ambos, mas no conseguiu.
 Acontecia com freqncia entre ns? Cindy sentiu-se aliviada em voltar a ser sincera.
 No. A propsito, foi a nica vez. Achei que voc tivesse se isolado por algum tempo para deixar o clima esfriar, se acalmar, aproveitando a deixa da viagem. Iria para St. Louis a negcios no dia seguinte, e l permaneceria por duas semanas. Quando no voltou para passar aquela noite em casa, achei que ainda estivesse aborrecido e decidido a pernoitar em seu apartamento. Ento eu fiquei furiosa, por no recebido nenhuma explicao.
 Entendo.
Um forte orgulho permeara sua atitude, pensou ela tristemente. Um orgulho tolo, absurdo at. Se no tivesse cedido a esse sentimento pouco nobre, teria iniciado as buscas imediatamente.
 Voc ia ficar fora por duas semanas  repetiu.  Depois que se passaram trs, finalmente decidi ir at o apartamento. Seu carro no estava ali, e achei que talvez voc tivesse mesmo prolongado sua estadia em St. Louis e deixado o automvel no estacionamento do aeroporto.  Cindy mordeu o lbio inferior.  Antes de sair de casa, disse algo a respeito de viver em St. Louis. Achei que a afirmao se devesse ao calor da briga, mas, como voc no voltou, voei para aquela cidade,  sua procura.
Ela se lembrava de tudo com grande vivacidade de detalhes. O olhar espantado do atendente de hotel quando lhe inquirira se Brady havia deixado o estabelecimento na semana anterior. O homem ficara indignado por ele nem ter tido a decncia de cancelar a reserva, que nunca fora utilizada.
Na ocasio, um arrepio glido lhe passara pelo corpo ao retornar para o txi que a levaria  delegacia de polcia.
 Voc no chegou a se hospedar no hotel. Dei queixa de seu desaparecimento em St. Louis na mesma tarde.
 St. Louis? Por que no recorreu  polcia de Bedford?
 Porque duvidava que estivesse aqui. A empresa area me disse, aps exaustiva insistncia de minha parte, que voc havia usado sua passagem.
Analisando a situao, era evidente a concluso de que algum utilizara a passagem em seu lugar.
 Gus me encontrou aqui.
Deu-lhe uma data correspondente ao dia posterior ao mal-entendido na casa de Cindy. Ela parou no semforo e se inclinou para ler a placa com o nome da rua.
 Durante todo o tempo procurei-o em St. Louis, e voc estava aqui. Mas no faz sentido eu me mortificar por esse motivo agora. J passou.
 E o que vai acontecer?
 Uma nova adaptao, a se iniciar no laboratrio onde voc trabalhava. Telefonei para o sr. Waverly esta manh e lhe expliquei tudo o que aconteceu.
 Waverly?
 Seu patro.
Cindy o conhecera no ano anterior, durante a festa de Natal. Tivera trabalho em convencer Brady, que detestava grandes eventos, a ir.
  alto, magro...
 Vire  esquerda  apontou, resoluto.  Ali. Brady indicava para que virasse no meio do quarteiro, mas ela se lembrava da existncia de um farol no final da quadra.
 A entrada  mais adiante. Brady sabia disso, sabia!
 Sim, mas h outra opo. Duffy...  S ento o impacto das prprias palavras o fez se calar, boquiaberto. Choque, alvio e um enorme prazer se mesclaram e iluminaram seu semblante.  Eu me lembro, Cindy! Eu me recordo de Duffy!  Como que para lhe provar, passou a descrever as caractersticas fsicas do homem.  Cabelos grisalhos, sorriso largo, pleno. Muito falante.
Cindy tomou o caminho indicado. Com o corao aos saltos, estacionou ao lado do prdio imenso. Tremia ao puxar o freio de mo.
Queria ver Duffy com seus prprios olhos. Contemplar algum de quem Brady se lembrava.
 O que est fazendo?
 No me importo que tenha se recordado de um senhor e no de mim. O importante  que sua memria se manifestou. E isso  tudo o que interessa.  Beijou-o, os olhos cheios de lgrimas.  Voc... conseguiu.
Brady nada falou, a voz totalmente embargada pela emoo. Tinha noo de quanto ela devia estar chateada por ter sido relegada a um segundo plano. Afinal, ele se recordara apenas do guarda que ficava  porta da empresa em que trabalhara...
 E, agora, vamos ver de que mais  capaz de se lembrar hoje.
 Cindy... Sinto muito por no me lembrar... de ns.
Ela fingiu no se importar muito e deu de ombros.
 Tudo bem. Voc me compensar depois.
 Prometo.
Cindy voltou a ligar o carro e dirigiu at a entrada do prdio onde ficava a guarita. Assim como Brady antecipara, um senhor de cabelos brancos, com uma prancheta na mo, apareceu.
 Duffy, concluiu ela.
 Ainda bem!

CAPTULO V

 Sr. Lockwood! A satisfao na voz grave de Duffy era inegvel. O senhor responsvel pela segurana da empresa se inclinou ao lado da janela de Cindy. Cumprimentou-a, pediu licena e estendeu o brao para apertar a mo de Brady.
 Por onde esteve? Soube que nos deixou...
 De certa forma, sim  respondeu Brady, aps trocar olhares com ela.
Os cintilantes olhos azuis do guarda fitaram Cindy e a aparncia de confuso imediatamente sumiu de seu rosto.
 Ah, bem, entendi o motivo, amigo.
Era melhor no deixar que a conversa se desenrolasse por mais tempo, decidiu ela, apreensiva. Temia que Brady se aborrecesse e ficasse nervoso.
 O sr. Waverly est nos aguardando. Disse que nos colocaria na lista dos visitantes de hoje.
Fazendo um floreio, ele virou as pginas presas em sua prancheta.
 Sim, esto aqui. Sr. Brady Lockwood e Cindy Collins.  Sorriu novamente e  falou:  E muito bom v-lo, sr. Lockwood.
 Voc nem imagina quanto apreciei o encontro. Como era agradvel ver algum que lhe era familiar!
Duffy entrou na pequenina sala e apertou o boto de um painel de controle. O porto vagarosamente se abriu, permitindo-lhes a passagem.
 Entrem  o guarda gesticulou, e em seguida se recriminou:  Ora, mas eu no tenho de lhes dizer aonde ir.
Cindy falava rapidamente, para tentar esconder de Brady a frustrao por no ter sido a primeira a ser reconhecida.
Dessa vez ser melhor que nos indique o caminho, Duffy  pediu ela.
O guarda arregalou os olhos e arqueou as sobrancelhas. O quepe que usava escorregou para trs e logo foi ajeitado, com um movimento automtico.
 Est bem  disse, por fim.   o terceiro edifcio  esquerda.
 Sala 230  Brady comentou subitamente. O nmero surgiu em sua mente como que por encanto.
 No  falou Cindy, fazendo sinal negativo com a cabea.  Vamos nos encontrar com o sr. Waverly na sala dele. Nmero 211.
 Eu quis dizer que costumava trabalhar na 230.  Podia visualizar apenas o nmero, mas ento, aps cerrar os olhos, viu tambm uma janela.  Uma janela d para o trio.
Sim!, pensou Cindy.
Estava emocionada ao dirigir para o edifcio apontado por Duffy.
 Tenho certeza de que  um trio maravilhoso.
Jacob Waverly tinha um rosto ossudo, que permanecia magro apesar dos freqentes almoos no restaurante italiano localizado a algumas quadras da empresa.
Nesse exato momento, seus olhos estavam pousados em Cindy e Brady. Uma secretria conduzia o casal  sua presena. Foi dispensada com um meneio.
 Nem consigo lhe expressar quanto estou feliz em v-lo, Lockwood.
Era indubitvel a veracidade de suas palavras. Quando Cindy lhe telefonara para contar as boas novas e marcar o encontro, ele fizera questo de salientar quanto Brady era respeitado e estimado por todos.
 Ns pensamos que voc... bem, no se importe com isso.  O chefe havia suposto que ele fora assassinado em St. Louis e engrossado a lista de crimes no-solucionados. O telefonema da srta. Collins, pela manh, deixara-o muito satisfeito. Sentem-se, sentem-se.  Fitou Cindy com surpresa e comentou:  Deve estar nos ltimos meses, no?
 Sim,  para o prximo.
Waverly fez um gesto de assentimento com a cabea, mas sua ateno j se centrava em Brady.
 A srta. Collins me colocou a par... do problema.  A tonalidade de sua voz diminuiu ao pronunciar o eufemismo.  Gostaria que soubesse que estou disposto a ajud-lo no que puder.  Colocou uma mo paternal no ombro de Brady. As coisas no tm sido as mesmas sem voc,
por aqui. Ningum parece saber nada, tanto quanto eu esperava que soubesse.
 O trabalho sempre teve papel muito importante na vida de Brady  Cindy interveio.  Talvez um retorno ao cotidiano pudesse estimular sua memria.  claro que, durante os primeiros dias, apenas como observador. Ele... at j se lembrou de Duffy, no  mesmo?  argumentou, esperando que a observao servisse de embasamento  sua teoria.
 No  de estranhar.  difcil esquec-lo. Fala mais do que um papagaio. Acho que a empresa toda em breve j estar sabendo de sua volta.  O homem fez uma pausa, considerando com seriedade a sugesto de Cindy. Fitou Brady, pensativo.  Voc est voltando para a empresa, Lockwood? Est pronto para retornar?
Ele olhou ao redor, vagarosamente, retendo cada detalhe e buscando conexes com o pouco que tinha na mente. Tudo lhe parecia vagamente familiar, como se j tivesse visto a sala em um sonho, algum dia, mas o quando e o onde permaneciam incgnitos.
Voltou a fitar Waverly, que o observava e aguardava pacientemente.
 Gostaria muito.
Era, a julgar pela expresso, tudo o que o chefe queria ouvir.
 Por que no passa em sua sala e depois vai ao laboratrio?  J o conduzia habilmente para a porta quando se lembrou da existncia de Cindy.  Pode ficar aqui, se preferir.
Mas ela j estava em p.
 No, quero ficar ao lado dele.
No ia perder um s passo desse rduo desafio.
Se funcionasse, voltariam a ser felizes. O que mais desejava era que seu amado recuperasse a identidade.
Fragmentos de memria lhe vinham vez ou outra  cabea. Brady estava em sua sala. Sabia exatamente onde e encontrava cada objeto. Mas, quando abriu uma gaveta, no compreendeu o contedo de alguns relatrios. Era como receber um soco no estmago. Uma decepo devastadora.
 Ignoro as informaes contidas nestas pastas.
 No, no  Waverly apressou-se em esclarecer.  Pierpont mudou-se para seu escritrio aps um ms que voc havia desaparecido. Guardou suas pastas e repassou os assuntou pendentes para eu avaliar. Pedirei que tudo seja trazido.
Brady olhou para Cindy.
 Ento quer dizer que no me esqueci do contedo daqueles papis. No eram meus.
 Tem razo, querido.
O passeio pela empresa se iniciou. O andar onde se situava a sala de Brady era repleto de escritrios semelhantes. Todos o cumprimentavam, e em segundos o corredor ficou cheio de pessoas. Expresses de alegria e gritos de surpresa vinham de toda direo.
Mas Brady no reconhecia ningum. Cindy olhou para Waverly, em um mudo pedido de ajuda.
 Que tal ir ao laboratrio principal?  sugeriu, e o casal, aliviado, o seguiu imediatamente.
Waverly observou Brady caminhar pelo laboratrio com uma desenvoltura espantosa. Era como se fosse sua segunda natureza.
 Acho uma boa idia acatar o que a srta. Collins props  falou.  Voc passar parte de seus dias aqui, talvez comeando a trabalhar com um assistente, em um de seus antigos projetos.
 Parece adequado.
 Ento, vamos nos considerar acordados  afirmou, selando o contrato com um forte aperto de mo.
A chave estava ali, naquele laboratrio, intuiu Brady. Sabia que poderia encontrar a si mesmo naquele ambiente. E ento, pensou ao olhar para Cindy, talvez pudesse ter condies de resgatar o homem que despertara amor naquela mulher excepcional.
Cindy tinha muitas perguntas a fazer, mas no era a hora. Mal podia esperar at estarem a ss novamente. O caminhar at o carro lhe pareceu interminvel.
 O que achou? Algo realmente est brotando em sua mente?
Era complicado descrever o que se passava, pensou ele. Assemelhava-se a uma tnue luz no final de um longo tnel escuro.
 Sim. Mesmo que de uma forma vaga, sinto que j pertenci a este lugar.  Lera um relatrio de sua autoria e, apesar de no se lembrar de t-lo elaborado, conseguiu entender o significado. Acho que a fsica tomou conta do meu sangue.
Cindy sempre dissera isto.
 At doa seus ossos, pode apostar  brincou, fingindo uma euforia que estava longe de sentir.
No queria aborrec-lo, pensou, determinada. O trabalho sempre ocupara o primeiro lugar na vida de Brady e os fatos recentes apenas demonstravam isso. E se o remdio tinha gosto to amargo, o que se haveria de fazer?
 Eu tenho um carro? A sbita pergunta a tirou dos devaneios.
 No sei. Quero dizer, voc tinha, mas no estava na garagem de seu apartamento. Acho que o roubaram, juntamente com a passagem area. Se foi abandonado, provavelmente j deve ter sido destrudo e reciclado. Poderamos pedir a Gus para verificar se foi encontrado algum veculo abandonado com as caractersticas de seu automvel.
 Quero fazer jus  oportunidade que Waverly est me dando e ser o mais independente possvel. Acho que um bom comeo ser descobrir se ainda sei dirigir.
 Poderemos conseguir uma segunda via de sua carteira de habilitao. At l, eu o levarei aonde quiser.  Hesitou antes, de completar:  Principalmente se estiver morando comigo. Ficar bem mais prtico. Cindy estivera pensando nisso durante todo o dia. Acordar e v-lo por perto fora como um blsamo. Ante a ausncia de resposta, apressou-se em comentar:  Faz sentido, no acha? Precisar de outro lugar para morar, j que abandonar o emprego no restaurante. E, quanto mais perto estiver do que antes lhe era familiar, maiores sero suas chances de se lembrar do passado.
Brady sabia que Demi o deixaria ficar no quarto o tempo que precisasse. Ela e Gus eram pessoas extraordinrias. Mas Cindy tinha razo em um ponto: precisava se expor a ambientes que o haviam cercado. E como estava ansioso por terminar logo com este pesadelo!
Alm disso, tinha de admitir que sentia atrao por ela. De verdade. Pouco conhecia a respeito de si mesmo, mas algo em Cindy lhe despertava as mais turbulentas sensaes. Estar a seu lado lhe fazia bem. Talvez no tivesse tido coragem de enfrentar a experincia no laboratrio sem sua inestimvel presena, a lhe dar fora e confiana.
 Est bem  concordou.  E, considerando que a maior parte de minhas coisas est com voc, faz mais sentido ainda.
 Exatamente. Muito lgico.
Estavam quase passando pela ltima entrada para o Shopping Center Westminster quando ela subitamente decidiu virar. O imenso estacionamento estava quase vazio. O lugar era perfeito. 
Brady olhou ao redor. Por que estariam ali?
 O que est fazendo?
 Voc disse que gostaria de averiguar se ainda sabe guiar. Pois vamos descobrir.  Diante de seu olhar estupefato, Cindy desceu e deu a volta no carro.  Troque de lugar comigo.
Brady saiu do automvel, ainda inseguro quanto ao que lhe era proposto.
 O qu?
 Eu lhe pedi para trocar de lugar comigo. Assim, poder saber como dirige. No h carros estacionados nas proximidades e existe bastante espao para voc praticar.
Brady acomodou-se no assento do motorista e se surpreendeu quando a viu ocupar o banco do passageiro. Aborreceu-se. Poderia arriscar a prpria vida, mas jamais a dela e a do beb.
  melhor que fique observando do lado de fora. Aguardou que Cindy sasse, mas ela no estava disposta a ir a lugar algum. Pressentia que, assim como acontecera no laboratrio, Brady agiria por instinto e saberia como proceder.
 Algum tem de ver se voc est fazendo tudo corretamente  ponderou ela.
 Tem sempre uma justificativa para tudo, no ?
 Procuro ter.
Ele estava aprendendo. Ou se recordando, pensou, divertida.
Brady respirou fundo, soltou o freio de mo e girou a chave na ignio. Aos poucos experimentou os pedais e em segundos o carro deslizava suavemente pelo estacionamento.
 Viu? Eu no lhe disse?  Cindy gritou.  E como andar de bicicleta.
 Tambm no me lembro de ter feito isso. 
Ela riu.
 Porque voc no sabe andar de bicicleta. Trata-se apenas de uma expresso.
 Oh!
 Est se saindo muito bem!
Brady achou que ela zombava, mas bastou um breve olhar para o rosto compenetrado para deduzir que estava completamente enganado.
 A vinte quilmetros por hora no se pode fazer grandes estragos.
Cindy se recordou do impacto que sofrer quando a traseira de seu carro fora atingida de leve por um carro, assim que o farol se abriu.
 Oh, ficaria espantado se soubesse como pode...
 A essa altura  falou, fazendo uma curva de cento e oitenta graus com mnimo esforo  qualquer coisa me surpreende.
Ela deu uma olhadela no velocmetro. Vinte e cinco quilmetros por hora. Era o mesmo homem cauteloso de sempre.
 Por que no tenta aumentar para trinta?  sugeriu.
 Voc  quem manda.
Aps diversas manobras e voltas, ela murmurou:
 Bem, estou satisfeita. Gostaria de dirigir at nossa casa?
Uma coisa era dar voltas em um estacionamento vazio. Outra, bem diferente, pegar uma rodovia.
 No estou com minha carta de motorista. E se formos parados por um policial?
  bastante improvvel, a menos que decida apostar corrida com algum  provocou ela, sorridente.
A curiosidade o impeliu a indagar:
 Por que est sorrindo agora?
 Porque o velho Brady no correria o risco. Aguardou que ele parasse o carro, mas isso no aconteceu. No lhe agradava a idia de depender de outras pessoas, em especial quando no sabia o que faria da prpria vida, doravante.
Flagrou-se desejando ser um pouco displicente. Talvez por estar confinado  impiedosa neblina da amnsia.  vontade de se sentir livre e capaz era muito intensa.
 Est bem, dirigirei. Mas voc ter de me indicar o caminho.
Cindy ficou surpresa. E deliciada.
 Passo a passo  prometeu.
Brady teve a impresso de que ela se referia a algo alm de um passeio de automvel. De alguma maneira, Cindy o fazia sentir-se esperanoso, uma emoo que lhe era to preciosa quanto rara.
 Pronto para seu vo solo, senhor? A sada fica do seu lado esquerdo.
  minha memria que est perdida, no a viso.  Com cuidado, Brady conduziu o carro at a pista. O trnsito estava calmo, verificou, aliviado.  Para onde gostaria que eu fosse?
Para o passado, respondeu ela em pensamento.
 Poderamos passar no restaurante e falar com Demi agora  sugeriu, como quem nada queria.  Voc poderia pegar suas coisas.  A falta de resposta lhe indicou que devia estar indo rpido demais.  A menos que prefira aguardar at amanh para fazer isso  complementou.
Pararam no farol vermelho. Brady tentou se lembrar do trajeto que ela tomara na ida. Norte. Precisava pegar uma entrada que fosse para norte.
 No. Prefiro ir hoje  noite. Feliz, ela relaxou.
 Vire  direita e passe pela lanchonete  orientou-o calmamente.
 Eu sei. Observei o caminho que fez quando viemos.
 Est progredindo!
 O que foi?
 Como assim?
 O que estava cantarolando?
 No sei o nome da cano. Apenas me veio  cabea. Por qu? Lembra-se dela?  perguntou, excitada.
Ele achou que sim, mas a sensao se foi.
 No  murmurou. Cindy observou o velocmetro.
 E quanto a voc ser parado pela polcia... Imediatamente, os olhos azuis se fixaram no espelho retrovisor. No havia nenhuma viatura a segui-los.
 O que tem?
 Tambm vo par-lo se andar devagar demais. Ele balbuciou alguma coisa indecifrvel e afundou um pouco mais o p no pedal do acelerador.

CAPTULO VI

Brady contemplou o terno que Cindy lhe trouxera. Como a maioria de seus antigos pertences, a roupa nem parecia ser sua. Duvidava que um dia tivesse sido capaz de vestir algo assim.
 Tem certeza de que isto  meu?  gritou, ao ouvir o barulho da porta do boxe do banheiro.
Um minuto depois, Cindy aparecia no quarto dele, uma toalha enrolada no cabelo e um robe azul. Apesar da ausncia de recordaes de como era a vida ao lado dela, Brady descobrira que estava apreciando o que desfrutava agora.
Cindy sentia-se como se estivesse correndo desde o alvorecer. Tinham exatamente uma hora para estar na casa de Marlene, para a cerimnia. Como planejado, as irms Bailey se casariam s onze horas.
As flores que as noivas tinham selecionado na loja de Cindy haviam sido entregues s sete horas da manh. Ela estivera l para arrumar pessoalmente as orqudeas, as rosas e os cravos.
O lugar parecia  prpria definio do caos organizado. Uma mulher pequenina, a quem MarIene lhe apresentara como Sally, permanecia no centro do aposento, vociferando ordens a um grupo de pessoas atarefadas. Cindy sentiu-se feliz por ter concludo seu trabalho rapidamente.
Se as flores no tivessem chegado a tempo, ela tinha srias dvidas se chegaria  cerimnia antes da entrada das noivas. Afinal, Brady insistia em olhar para o terno que lhe comprara como se fosse um inimigo.
  seu. Com toda certeza  garantiu. Quando a memria voltasse, esperava que essa pequena mentira fosse perdoada. Ademais, ele ficaria to bonito com a roupa que uma repreenso at valeria a pena. Enxugou os cabelos na toalha.
 Onde estava?
 Na lavanderia. Talvez tenha encolhido um pouco, mas nada muito perceptvel.
Brady ainda no vestira o palet. Pegou-o, avaliou novamente e o experimentou.
 Serve perfeitamente, mas no estou falando nisso. Simplesmente no se parece com algo que eu usaria.
 Oh, mas j o vestiu. E com muita classe. Ficou deslumbrante. E muito sensual.
 Voc no est se aproveitando da minha situao, no ?
 Quem, eu?  indagou ela, j sentindo peso na conscincia.
Brady gargalhou. Cindy o fizera rir muito durante a semana anterior. Trouxera luz a seu mundo acinzentado. Fizera valer a pena cada esforo para resgatar a memria perdida.
No resistiu  tentao de passar o dedo pela barriga proeminente e a puxar para si. Adorou o olhar de espanto. Obviamente, essa atitude no lhe era tpica e o fato, de certa maneira, o agradava.
Cobriu seus lbios num breve beijo. At mesmo o leve toque fez com que ambos estremecessem. Hesitante, ele a soltou.
 Sim, voc mesma.
Cindy o fitou, atnita. Essa era uma faceta de Brady que desconhecia completamente. E da qual passara a gostar muito. Esperava que essa nova caracterstica fizesse parte de sua personalidade permanentemente.
Ele estava ali h uma semana. Sete preciosos e maravilhosos dias que a fizeram voltar a ver prazer no cotidiano. Havia, porm, a tormenta de estar diante de olhos que no a reconheciam.
Mas mesmo isso tinha suas compensaes. Ele vinha mostrando qualidades que Cindy at ento ignorava. E que a fizeram apaixonar-se mais uma vez.
O mais importante, repetia-se, era sua volta. Mesmo sem se recordar do passado, era o homem que amava.
Quando fora busc-lo, na primeira tarde de trabalho, tivera expectativas altas demais. Achara que a convivncia com colegas lhe tivesse despertado tudo. E, embora ele tivesse lhe contado que sabia boa parte das tarefas que lhe cabiam, no se lembrava nem sequer de ter trabalhado para os Laboratrios Edmond.
Lera pginas que havia escrito e at acompanhara o raciocnio das anlises e dos clculos matemticos envolvidos, mesmo sem reconhecer-se como o autor do relatrio.
Aos poucos, Cindy foi se conformando com a dimenso do problema. A memria no retornaria com tanta facilidade, como previra nem, provavelmente, de uma s vez.
O que a consolava era que estavam tendo oportunidade de conhecer-se do marco zero, de novo. Quantos casais tinham a chance de se apaixonar outra vez?
Fitou-o de soslaio. Esperava que ele estivesse se apaixonando. Suspirou. A nica certeza que acalentava lhe dizia morrer de amores por esse novo homem, um pouco mais gentil e vulnervel que o Brady de outrora.
Olhou para o traje de gala.
 E agora pare de se referir  roupa como uma inimiga. Temos de nos apressar para estar l em menos de uma hora  avisou, e deixou o aposento.
 Vai ao casamento de todas a suas clientes?  perguntou ele em tom mais alto.
Cindy voltou ao quarto. Desse jeito no ficaria pronta nunca.
 No, mas elas so especiais. Conheci Marlene e Nicole na sala de espera do consultrio da minha mdica. Ambas j tiveram bebs.
 E esto se casando hoje?
Apesar de compreender a estranheza, Cindy sentia muito orgulho da histria das duas.
  uma trajetria de vida muito envolvente. Brady pegou a camisa pendurada em seu closet e a vestiu.
  mesmo?  falou alto, para se fazer ouvir.  Bem, talvez voc possa me contar no caminho para a cerimnia.
Ela se maquiava com agilidade quando, ao escutar as ltimas palavras, parou, incrdula. Brady nunca apreciara longas histrias, a menos que tivessem fundamento cientfico. Dando de ombros, tratou de terminar de se pintar.
Em seguida, tirou o robe. Ps o suti e a calcinha, que ficou meio justa na barriga. O que h um ms lhe servia, nesse momento j se mostrava quase a ponto de ser descartado.
Pelos clculos da dra. Pollack, o parto ainda demoraria trs semanas. Aconteceria perto do dia dos namorados. Gostaria que fosse exatamente nessa data. Seria um presente e tanto.
Mas, enquanto o dia no chegava, sentia-se como um balo.
O vestido teria caimento perfeito graas s provas de ltima hora na costureira, alegrou-se. Apenas se esquecera de que o zper ficava na parte de trs. Por mais que tentasse, no conseguia alcan-lo. Se forasse, poderia deslocar o ombro.
Resoluta, caminhou para o quarto de Brady. A porta estava fechada. Ento, bateu.
 Est vestido?
Uma brisa fresca vinda da janela aberta da sala de estar a fez arrepiar-se. Teria de se lembrar de fech-la antes de sarem.
 Depende.
 Estou entrando  anunciou, preocupada com o horrio.  Voc por favor poderia...  Perdeu a voz ao ver o reflexo dele no espelho. Como estava atraente! Divino. Estonteante. Mas parecia aborrecido.  O que est fazendo?  indagou, ainda abalada.
A gravata encontrava-se pendurada a seu pescoo, como um pedao de tecido sem utilidade. Brady parecia disposto a jog-la no lixo.
 Tem certeza de que eu j usei isso antes?
 Sempre teve problemas com gravatas.  O sempre compreendia a nica vez em que o fizera vestir algo semelhante para a festa de Ano-Novo de sua amiga Eve, mas nada comentaria a esse respeito. Talvez mais tarde. Com dedos habilidosos, deu um n perfeito.  No se preocupe com isso. Homens no so muito jeitosos com este tipo de coisa.
 Se no so bons, por que se importam em vestir gravatas?
  fcil. Para ganhar um carinho a mais de suas mulheres. Est... deslumbrante, sr. Lockwood.
 Discordo! Voc est.  Observou-lhe as costas nuas atravs do espelho.  No est um tanto... descoberta?
 Foi por isso que vim at aqui.  Virou-se de costas.  Preciso que levante o zper do meu vestido.
A pele, impecvel, macia, convidava os dedos de um homem. Teria feito isso algum dia? Com freqncia? Ou estivera muito ocupado, como Cindy chegara a insinuar, para se dar conta de tamanho tesouro?
Ela ainda aguardava. Rapidamente, fechou o zper.
 O que teria feito se eu no estivesse aqui?
 Vestiria outra roupa. No poderia bater de porta em porta para solicitar que uma alma caridosa me ajudasse com o zper.
 Por que no? Suas costas so adorveis.
 Obrigada. Mas isso no justifica que as mostre para todo o bairro, no  mesmo?
Ela sorria, e havia uma expresso em seu olhar que Brady no conseguiu decifrar. Ser que, inadvertidamente, dissera algo errado?
 Parece estar se divertindo  minha custa.
 No. Apenas o admiro.
Ele no era de fazer elogios, apesar de suas constantes cobranas. Sempre tivera de se contentar com o que notava nas entrelinhas. Era maravilhoso ouvir palavras to lisonjeiras.
Brady se contemplou no espelho, criticamente. Estava charmoso, concluiu, mas se sentiria bem mais feliz se dentro de jeans e camiseta.
 No estou muito  vontade...
Cindy o pegou pela mo e levou-o para fora do quarto.
 Logo se esquecer da roupa e aproveitar a festa.
 Eles parecem muito felizes  Brady comentou, referindo-se aos noivos.
Sullivan Travis e Dennis Lincoln estavam em p, lado a lado, no aguardo de suas amadas. O nervosismo e a expectativa de ambos eram contagiantes.
 Sim. Tem razo.
O comentrio pouco usual a tomou de surpresa.
Observou os dois homens e os comparou as descries dadas pelas amigas. Sentia-se feliz por elas, quase invejosa at. Mas sem maldade. Apenas gostaria de um dia ter a mesma alegria.
Os acordes da marcha npcial interromperam seu devaneio. De onde estava, Cindy tinha uma boa viso de Marlene e Nicole descendo a escadaria. Era difcil dizer qual das duas estava mais radiante.
Ao p da escada, uniu-se a elas uma mulher mais velha, trajando um vestido azul-plido. A semelhana com Marlene era reveladora. Com lgrimas nos olhos, a senhora deu um brao a cada noiva e as conduziu lentamente ao altar.
 Quem  aquela?  Brady sussurrou ao ouvido de Cindy.
O calor da respirao a deixou arrepiada. Isso no mudara, pensou satisfeita. Ele continuava a ser o nico homem a incendiar-lhe o sangue ao mais leve toque.
  a me delas, Laura Bailey.
Durante o trajeto at a casa, Cindy lhe explicara sobre o recente aparecimento da mulher, aps vinte e um anos. Uma histria repleta de mal-entendidos, investigaes policiais e um pai manipulador que, at a morte, tornara a vida de todas um inferno. Parecia a Brady que finalmente as mulheres Bailey iniciariam uma fase feliz.
Cindy notou que ele observava a cerimnia com um sorriso leve nos lbios, como se estivesse alegre em estar ali. O pensamento a emocionou.
No se podia dizer qual das noivas estava mais bonita. Marlene, alta, esguia e loira, usava um vestido branco tradicional, com um extenso vu. O corpete era todo trabalhado com prolas, e a saia longa se espalhava a seu redor com majestade.
Nicole, mais baixa, tinha cabelos escuros e usava um vestido branco  altura dos joelhos. O destaque ficava por conta do decote profundo nas costas.
A cerimnia foi relativamente breve, mas romntica e envolvente. Cindy sentiu os olhos rasos dgua. Mal podia esperar at ser sua vez de receber uma aliana de Brady.
Acontecer. Um dia meu sonho se tornar realidade, prometeu.
Quando todos se levantaram para saudar os recm-casados, Brady pousou a mo em seu ombro. Uma atitude intuitiva, incomum  personalidade dele. Cada vez mais se sentia conquistada. E passava a entender os meandros do destino.
A recepo se deu em um ambiente da casa especialmente arquitetado para grandes eventos. Cindy ficou contente em observar que suas flores davam um charme especial e fundamental  decorao. A escolha fora mesmo primorosa.
Uma pequena orquestra tocava baladas romnticas. Convidados danavam, embevecidos pelo clima de felicidade e romantismo. Outros se serviam das iguarias dispostas em uma mesa que ocupava um canto da sala.
Marlene havia comentado com Cindy que adorara a comida servida pelo restaurante do primo da dra. Pollack na festa de Natal, e por isso solicitara seus servios para a recepo do casamento.
Cindy j conhecia algumas das mulheres presentes. Encontrara-as na sala de espera da mdica. A doutora tambm estava ali, conversando com a me das noivas. E, espanto supremo, tambm estava grvida.
 Acho que ela se deixou contagiar pela animao de suas pacientes  brincou Cindy.
 Quem?
 Minha mdica. Est prxima  lareira, falando com a me de Marlene. Grvida  acrescentou, incrdula.  Na ltima consulta, h duas semanas, no percebi nada. O avental deve ter ajudado a ocultar.
Brady contemplou a mulher. Uma loira bonita, com um vestido rosa-claro que deixava bvia sua condio de futura mame.
 Talvez seja algo na gua...  comentou ele.
 Cindy, Nicole acabou de me contar!  disse uma ruiva intempestiva ao tocar-lhe o brao.
Brady notou que, como Cindy e diversas outras mulheres presentes  festa, essa moa tambm esperava um beb. Passou a considerar se realmente no haveria algum problema com a gua.
Mallory olhou de Cindy para Brady.
 Parece exatamente do jeito como ela o descreveu.
 Bem, isso  bom  falou bem-humorado.  E quem  voc?
 Mallory Flannigan.
Seu aperto de mo era firme e caloroso. Parecia genuinamente feliz em v-lo.
 Ela passou por maus bocados durante sua ausncia  confidenciou-lhe a ruiva.  Esta  a primeira vez que a vejo sorrir em muito tempo.
Brady voltou-se para Cindy. Era difcil imagin-la sem um sorriso exuberante. Algum chamou Mallory, que se despediu.
 Preciso ir. At mais. Acho que Nicole e Dennis ficaram interessados em um sobrado que fica prximo daqui. Desejem-me boa sorte.
E sumiu por entre os convidados.
 Ela vende casas  Cindy explicou.
 Eu j havia deduzido  ele afirmou, sorrindo. A orquestra passou a tocar uma msica suave. Movido por um impulso, Brady ps os copos de ambos sobre a mesa.  Gostaria de danar?
Seus dedos se entrelaaram. Ela j estava para lhe revelar que o antigo Brady no sabia danar, mas se conteve e perguntou:
 Voc sabe fazer isso?
 Vamos descobrir?
Era uma bela desculpa para estar na fortaleza daqueles braos. Um momento sonhado durante os longos meses de solido e desespero.
Brady danava bem, o que a fez ponderar se ele teria aprendido durante a estadia no restaurante. Pensou em Demi. J no conseguia mais permanecer em silncio. Tinha de averiguar.
 Sempre me falou que no gostava de danar. Ele deu de ombros. Tudo o que sabia era que se sentia muito bem em abra-la ao sabor da msica. Parecia agir instintivamente.
 Posso ter dito isso um dia. Agora, entretanto, eu me sinto timo e estou apreciando danar com voc.
Calada, ela fechou os olhos e mergulhou no conforto do abrao protetor. Podia sentir o corao amado batendo, e o calor de seus corpos lhe dava uma indelvel sensao de bem-estar.
 Cindy?
A voz demorou a lhe chegar  conscincia.
 Sim?
 Ns... ramos felizes?
Ela ergueu a cabea, imediatamente alerta.
 Sim, por qu?
Era difcil colocar em palavras o motivo.
 Apenas queria saber.  ruim no me lembrar.
 No se obrigue a nada. Tudo vir a seu tempo.
Mas... e se jamais recuperasse a memria? Precisava reconstruir sua vida.
 Se formvamos um casal feliz, por que no nos casamos?
Uma boa pergunta, que ela se fizera vezes e vezes na calada da noite. Deu-lhe a desculpa que usava para si mesma:
 Voc nunca falou no assunto. Sempre esteve muito ocupado com o trabalho. No tinha tempo.
 Isso... no me parece certo.
 Voc teve seus motivos.
Era uma discusso esquisita. Como defender uma atitude que tanto a magoara? Em condies normais, deveria estar do outro lado do combate, mas no momento via-se em posio de defender a paz de esprito de Brady.
Quaisquer que tivessem sido suas razes, ponderou ele, j no pareciam mais vlidas. Ao abraar Cindy, podia sentir o beb se mexer. Seu filho. J era hora de assumir suas responsabilidades.
 Vamos fazer isso.
A que se referia? perguntou-se ela, confusa.
 Fazer o qu?
 Vamos nos casar.

CAPTULO VII

Cindy sentiu o ar lhe faltar. Durante alguns segundos a sala repleta e a msica desapareceram, deixando-a a ss com Brady. Sonhara com aquelas palavras mgicas tantas e tantas vezes... No entanto, no sabia o que responder.
Talvez porque tivessem sido ditas no momento errado. Ou porque a esperana de ouvi-las houvesse acabado.
Gradualmente, foi voltando a perceber o ambiente que os cercava e a voz lhe retornou.
 No pode estar falando srio!
No fora esse o comentrio que ele previra, pensou encabulado.
 Ao contrrio. E, pelo que pude aprender sobre mim, sou uma pessoa bastante sria. At demais  acrescentou ao se lembrar das atitudes conservadoras que ela lhe relatara como suas.  No estou brincando. Gostaria de se casar comigo?
Cindy no sabia se chorava ou se ria. Acabou por no fazer nenhuma das duas coisas. Em vez disso, parou de danar e encaminhou-se para fora da pista, tomando-o pela mo.
Definitivamente, essa no era a reao que Brady esperara. Sem pistas de como agir, limitou-se a segui-la at a mesa, para se servir de uma bebida. Tocou-lhe o brao de leve.
 O que foi? Achei que fosse ficar feliz.  Haveria algo importante sobre seu relacionamento anterior que desconhecia?  No quer se casar comigo?
Cindy segurou o copo com ambas as mos, para evitar que o tremor a fizesse derrub-lo. Fitava o lquido como se ali estivessem as palavras que daria como resposta.
 Sim, mas o motivo da proposta me incomoda. Voc no me ama. Ao menos ainda no.
Brady no sabia ao certo o que era o amor, mas tinha certeza da atrao que sentia por ela. Talvez algo mais. A despeito dessas definies, havia um assunto mais importante em questo. Um beb estava a caminho. E chegaria muito em breve.
Ps um brao ao redor dos ombros delicados. Era incrvel a necessidade que sentia de proteg-la, embora soubesse que, naquela fase de sua vida, fosse ele o amparado.
 Estou me esforando para resgatar o passado. Estou... tentando...
Era exatamente esse o ponto, pensou Cindy, desvencilhando-se do abrao.
 Amor no  algo que a gente possa tentar. Apenas acontece.
Brady fitou-a. Tinha nos lbios um sorriso paciente.
 Acho que estamos tendo o que voc chama de divergncia de opinies. Porque o amor demanda, sim, uma srie de tentativas de descobrir um ao outro a cada dia, e a ser cada vez melhor. Ser que ele no entendia? Cindy no queria que se casasse movido por um senso de obrigao. Enfrentava a situao como se fosse mais um assunto do cotidiano do laboratrio onde trabalhava. De modo metdico e com lgica.
 No devemos nos casar antes de voc recobrar a memria.
 Cindy, se este beb  meu...
 Se?  repetiu ela, incrdula. Por acaso a julgava capaz de mentir sobre algo to importante? Que espcie de mulher pensava que era?  Este filho e seu, sr. Lockwood. Nada a duvidar a esse respeito. Estamos entendidos?
Brady no tivera a inteno de questionar a paternidade. Ao contrrio, intua que ela no mentiria e que jamais o teria trado. Aparentara genuna alegria ao v-lo no restaurante, aquele dia. E havia amor em seus olhos. Assim como dor.
 Desculpe-me, eu me expressei mal. Estava apenas iniciando uma considerao. Deixe-me reformular o que dizia, est bem? J que o nen  meu,
quero assumir plena responsabilidade sobre ele.
 O que no precisa incluir casar com a me dele.
 Para mim, inclui  afirmou com extrema convico.  Isso, ao menos, eu conheo a meu respeito.
Cindy mordeu os lbios. No, no seria certo. No dessa forma.
 Talvez eu no deseje me casar com voc.
Brady no aparentava raiva ou mgoa, mas estava disposto a aceitar somente um sim como resposta.
 Est sendo egosta ao privar o beb de seus direitos. Uma criana merece viver ao lado da me e do pai.
 Est bem, est bem. Ponto para voc.
 Ento vai se casar comigo?  indagou, buscando a resposta em seus olhos.
Tudo estava to errado, considerou ela, angustiada. Era preciso uma base mais slida para construir um casamento. Se aceitasse, praticamente estaria tirando vantagem da fase vulnervel pela qual ele passava.
Mas desejava casar-se com Brady. De todo o corao. Talvez pudesse fazer com que esse novo homem a amasse... Se j conseguira uma vez, repetir o feito no seria impossvel. E o contato dirio tornaria mais fcil a conquista.
Um sorriso hesitante curvou-lhe os lbios.
 Est bem. Eu me casarei com voc. Pegando-lhe as mos, Brady indagou:
 Quando?
Cindy quase riu alto. Rapidez e objetividade. Caractersticas to arraigadas nele...
 Bem, exatamente agora, no.
 No?
Olhando para o altar com ar de dvida, Brady no parecia convencido. Adivinhando seus pensamentos, Cindy passou a listar algumas das providncias a serem tomadas.
 Precisamos fazer exames de sangue, comprar alianas, arrumar um local para a cerimnia...
Sabia no ser apropriado usar um vestido de noiva tradicional, mas uma celebrao planejada era uma exigncia mnima. O mais simples dos casamentos requeria certos preparativos. A nica coisa com a qual no teria de se preocupar era com o buqu.
 Est bem. Em uma semana, ento  reavaliou ele. Seria melhor que se apressassem, considerou, preocupado com o tamanho do abdmen de Cindy. Assim teremos tempo suficiente para os preparativos.  Quando a fitou, entretanto, identificou um brilho de tristeza no rosto delicado.  O que foi?
 Nada  respondeu ela, erguendo os ombros e depois os deixando cair displicentemente.  Apenas imaginei que toda noiva recebesse um beijo maravilhoso aps o pedido de casamento. Sem intervalo de nem sequer cinco minutos entre o
convite e o carinho.
Estava sendo tola, sabia, mas, afinal de contas, esse era o seu Brady. Com ou sem memria, amava-o imensamente. E, conhecendo-o to bem, devia se conformar com o fato de que ele no daria tal demonstrao de afeto em pblico.
 Oh!  exclamou Brady, sem graa. E, a despeito de o salo estar lotado, tomou-a nos braos.
 Est bem.
Sorriu ao beij-la de leve. Mas, como um toque leva a outro, o afago se tornou mais intenso e deixou ambos desorientados.
A cabea de Cindy parecia girar. Ela lutou bravamente para manter o controle. Esse homem, definitivamente, no era Brady. Jamais a teria beijado com tantos espectadores ao redor, quanto mais com tamanha paixo.
Quando a soltou, ele percebeu, satisfeito, que os lindos olhos acinzentados mostravam surpresa. E prazer.
 Pronto. Cumpri direitinho minha misso e gostei muito da tarefa, saiba disso  brincou.  E antes do prazo de cinco minutos.
Ela riu. Talvez tudo acabasse bem, afinal.
Cindy abria a porta de casa quando percebeu que o telefone locava. No fazia idia de quem seria, quela hora. Terry j fechara a loja.
 Eu atenderei  Brady ofereceu-se.  Al! Aguarde s um momento por favor. Cindy j vir.
 Brady? Oi,  Gus. Tenho boas notcias para voc.
Ele experimentou uma sensao diferente. Tinha informaes positivas a receber de um amigo. Um assunto seu. Era bom sentir-se assim.
 Diga! Estou ansioso.
 Encontramos seu carro.
Surpreso, ele cobriu o fone com a mo e se virou para Cindy, que tirava os sapatos. Por que achava o gesto to sensual?
  Gus. Encontrou meu carro.
Ela se aproximou, sorrindo. J havia perdido as esperanas de o automvel ser recuperado.
 Em que condies?
Brady deu de ombros, indicando que ainda no sabia.
 Como est o veculo?  indagou a Gus.
 Em ordem. H apenas um leve amassado na lateral direita.
Brady repetiu a informao a Cindy.
 Mas isso j existia. Voc deu a batidinha ao sair de um estacionamento.  Ante o olhar de dvida que recebeu, Cindy admitiu:  Est bem. Eu calculei mal o espao para sair de uma vaga e bati.
 Isso me soa mais provvel. Pelo que notei, sempre fui um motorista cuidadoso. At hoje sou, enquanto voc  mais ousada ao volante.  Voltou ao aparelho.  Desculpe, Gus. E ento, onde devo apanhar o carro?
 Est na delegacia. Que tal se eu passar por a para buscar voc?
O amigo no o via desde que ele deixara o trabalho, no restaurante de Demi. Estava curioso por saber dos progressos em sua recuperao.
 timo.
Cindy ergueu as sobrancelhas, para saber o motivo de tamanho entusiasmo.
 Quando?
 Poderia ser amanh, perto das trs da tarde?
 Estarei trabalhando no laboratrio.
 E a que horas sai?
Preenchera quase todo o seu dia. As informaes do passado pouco a pouco lhe vinham  mente, e o ajudavam a recuperar a rotina de outrora. Havia muitos momentos de frustrao, mas o importante era que estava se readaptando a seu mundo.
 Saio por volta das cinco e meia.
 Est bem. Demi e eu temos sentido sua falta no restaurante. Como est se saindo no trabalho?
Brady sabia o que o outro queria saber. Sobre sua recuperao. Suspirou. Felizmente, o nvel de decepo decrescia a cada dia.
 Ainda no recobrei a memria, mas me recordo das tarefas do servio.
 E como est Cindy?
 Bem. Diga-me, Gus, gostaria de ser meu padrinho?
 De qu?
 De casamento.
Brady ficou tenso,  espera de uma sensao de pnico que no veio. Ao contrrio, sentiu-se imensamente feliz. Relaxou, gratificado.
 Est brincando! Voc... vai se casar?
 Parece ser a atitude certa a tomar. Cindy levantou-se do sof e pegou os sapatos. A atitude certa a tomar, repetiu em silncio, magoada.
As palavras ecoaram diversas vezes em sua cabea enquanto se encaminhava para o quarto. Esse era seu Brady, afinal. Sempre poderia contar com ele para fazer tudo corretamente.
Jogou os sapatos no closet. Suspirou. Atitude certa, pois sim! Era um banho de gua gelada sobre sua expectativa de romance, mas no devia se sentir to decepcionada. Afinal, seu amado nunca fora um sonhador, contemplador de estrelas.
Mas, esperanosa, havia desejado que essa caracterstica tivesse sido guardada em um cantinho especial da mente dele, pronta para um dia se revelar. A mostra de carinho de h pouco, no casamento, fora uma pista falsa. A mudana no era to poderosa assim.
A procura de consolo, considerou que o romantismo sempre desaparecia com o tempo. Sua irm, por exemplo, sonhara durante longas caminhadas de mos dadas, jantares  luz de velas e finais de semana idlicos. E o casamento mal durara dezoito meses.
O mesmo no aconteceria com Brady. Era muito lcido. Ela podia no vir a ter romance no dia-a-dia, mas a seu lado estaria um homem feito do mais puro ouro. Porm... isso lhe bastaria?
Brady permaneceu parado ao lado de Gus enquanto Cindy caminhava vagarosamente ao redor do automvel. O carro estava sujo de lama, mas ela reconheceu a licena, a marca e o modelo.
  seu carro, sim  assegurou.  Encontrou algo dentro, Gus?
 Caso esteja se referindo  carteira ou  maleta, no. Apenas latas vazias de cerveja e tocos de cigarro. A pessoa que o roubou fumava  bea.
Hei, cara, tem fogo?
Brady sentiu a mo de Cindy em seu brao.
 O que aconteceu? Est to plido...
 Nada. Achei que estava me lembrando de algo, mas...  Balanou a cabea.  Deixem para l.
Cindy o fitou, incerta. A cor lentamente voltava ao rosto dele, notou. Virou-se para Gus. 
 Onde achou o carro?
 Estava abandonado no estacionamento do aeroporto.
Desde a reforma, feita h alguns anos, a rea destinada a carros se tornara to imensa que dificultava a descoberta de veculos abandonados.
 Um dos guardas finalmente percebeu que o automvel no era procurado h um bom tempo e contatou a polcia.
Isso vinha ao encontro da teoria de Cindy, de que o ladro utilizara a passagem de avio de Brady. Tentou conter a raiva. O bandido a fizera voar em vo at St. Louis e isso custara meses de separao entre ela e seu querido. Se tivesse dado queixa na cidade, Gus teria notado e tudo haveria sido solucionado com menos sofrimento. Brady inspecionou o carro. No se lembrava nem de o ter comprado, quanto mais dirigido. Sentou-se ao volante. Nada. Olhou para Cindy, que o observava, ansiosa.
 Agora no ter mais de me levar e buscar no trabalho.
No me incomodava em fazer isso, pensou ela.
Gostava de participar de seu cotidiano, de o ter de volta em sua vida.
Ele saiu carro. Era um modelo simples, do tipo que compraria. Nada enfeitado, apenas confivel.
 Somente formalidade  Gus falou ao solicitar que Brady assinasse um formulrio.  Ento, falem-me sobre o casamento.
Brady e Cindy j haviam tomado algumas providncias desde a deciso, no dia anterior. Ela lhe relatara, durante o trajeto para casa,  tarde, que levara quase todo o dia para convencer o padre de que sabia o que estava fazendo. Com relutncia, o homem concordara em celebrar a unio.
 Ser no prximo domingo. Muito simples. Aceitar meu convite? Sabia que  meu amigo de mais longa data?
Haviam mesmo se tornado amigos, Gus considerou. Visivelmente tocado, ofereceu ao rapaz sua mo, para selar o compromisso.
 Ser um grande prazer. Apenas se certifique de que a madrinha seja bem bonita.
Cindy foi pega de surpresa. Madrinha! Nem tinha pensado nisso. Terry! Convidaria Terry. Era sua melhor amiga.
 Verei o que ser possvel fazer  prometeu a Gus.
Precisavam ir embora. Tinham muito a fazer, e todo minuto era precioso.
 Sabe se h gasolina no carro?
 O suficiente para chegar at o posto, na prxima esquina.
 Ento este ser meu primeiro destino!  Brady exclamou ao entrar no veculo.
 No encontramos as chaves  Gus informou.
 Sem problemas. Cindy tinha cpias. O policial a fitou com admirao.
 Um dia eu gostaria de encontrar uma mulher como voc.
 Sair mais barato se mantiver cpias de suas chaves em casa  brincou ela, matreira.
Ignorava o porqu de um sujeito to bem-apessoado ainda estar solteiro. Talvez uma opo de vida, e no falta de oportunidade.
 Brady, por que no espera que eu pegue meu carro? Assim poder me seguir at em casa.
 Est com medo de que eu me perca?
 Sim  respondeu ela, com uma seriedade que surpreendeu aos dois.
 Est bem. Esperarei.
No fora assim em seus sonhos, pensou Cindy enquanto Brady parava o carro no estacionamento da igreja. Imaginara bem diferente o dia de seu casamento. Mas, felizmente, amava o homem a seu lado queria passar a vida ao lado dele.
Brady puxou o freio de mo e permaneceu sentado por alguns instantes.
 Nervoso?
 No. 
 Esquisito no estar. 
 Estou grato por no ter me obrigado a vestir terno.
Saiu do carro e deu a volta para abrir a porta de passageiro.
 No achei certo voc se vestir de modo tradicional e eu, um modelo informal.
Alisou o vestido de seda creme. Nada dissera, mas Brady sabia quanto ela gostaria de estar usando um longo modelo branco adornado com prolas. Talvez um dia pudesse realizar esse sonho. Ouvira dizer que era comum pessoas renovarem seus votos de compromisso de tempos em tempos.
 Est muito linda.
Ela no se sentia assim, mas gostou do elogio.
 Obrigada. Voc... tem certeza de que deseja ir em frente? Ainda d para desistir.
Cindy estava protestando demais. Talvez no o quisesse por marido e estivesse com receio de lhe contar.
 Quer que eu volte atrs?
 No  respondeu ela com sinceridade.  Mas tambm no desejo que se arrependa depois.
Brady mergulhou nos olhos acinzentados e soube que ela falava a verdade. Sorrindo, beijou-lhe a mo e disse com firmeza:
 No me arrependerei.
 Est bem, ento vamos l.
Ao caminharem para a igreja, avistaram um carro creme se aproximando e parando ao lado de onde estavam. Gus e Demi desceram.
 Ol!  A moa acenou.  Espero que no se importem, mas pedi a Gus que me trouxesse. Adoro casamentos.
 Mesmo os mais simples?  indagou Cindy. Com Demi, seriam apenas seis pessoas presentes.
 Especialmente  respondeu ela calorosamente.  Isso os torna exclusivos. E depois iremos ao Aphrodites para uma recepo, que fazemos questo de lhes oferecer. No aceitaremos uma recusa  avisou quando Brady abriu a boca para protestar.
Demi falava ainda mais rapidamente do que Cindy, notou ele, e tirava concluses com igual agilidade.
 Eu s ia agradecer.
 Oh! Ento pode falar. Onde est a madrinha? Gus me disse que  muito bonita.
 Eu falei que esperava que fosse  Gus a corrigiu.  Ela nunca presta muita ateno ao que lhe digo.
Cindy olhou ao redor,  procura do carro de Terry.
 Terry sempre chega em cima da hora. Subitamente, um pequeno automvel vermelho entrou no estacionamento.
 Ol. Desculpem-me, estou atrasada. Corri feito maluca at aqui e...  Viu Gus e o reconheceu como o policial descrito por Cindy.  No, nada disso. No corri, no  corrigiu-se, com medo de ser repreendida.
 Estou aqui extra-oficialmente. No se preocupe. Nada ouvi.
Terry enrubesceu e em seguida deu uma sonora gargalhada.
 Puxa, Cindy, voc est linda!
 Obrigada. Sinto-me bem.
 Bem, no. Maravilhosa!  Terry virou-se para Brady.  Diga isso a ela.
 J falei.
 Ento repita  Demi interveio.
 Nossa, quase ia me esquecendo!  Terry exclamou, e abriu a porta do carro.  O buqu da noiva!
Cindy o pegou com cuidado.
  deslumbrante!
 Assim como voc  Brady garantiu.  E agora vamos nos casar, minha linda noivinha.

CAPTULO VIII

Cindy estava em p  porta de seu quarto. Observava Brady caminhar, pelo corredor, para o aposento que ocupara durante as duas ltimas semanas.
A recepo no restaurante Aphrodites fora maravilhosa. Demi se dedicara pessoalmente  decorao, mesmo em se tratando de to poucos convidados. At pedira ao chef para fazer um bolo de noiva de trs andares.
Um dos garons tirara fotografias com a cmera de Cindy. Apesar da alegria reinante, ela estivera meio triste porque seus pais e suas ims no haviam podido comparecer  celebrao, marcada to repentinamente. Mas aos poucos o carinho dos amigos dissipou-lhe a melancolia.
Ficaram conversando durante horas. Terry jogou seu charme sobre Gus, e foi intensamente correspondida. E Cindy descobriu que gostava de Demi.
Quando todos finalmente concordaram em ir embora, os recm-casados foram para casa. Cindy estava eufrica. Chegara o momento de dar novo rumo  vida.
 Eu acho  comeou a falar, cautelosa  que, como marido e mulher, poderamos dormir no mesmo quarto.
Brady a fitou. Esse era seu desejo tambm, mas no quisera se mostrar insensvel s condies dela. Ela talvez preferisse dormir sozinha, j que estava prestes a dar  luz. Mas, obviamente, enganara-se.
Depositou-lhe um sonoro beijo nos lbios ao passar a seu lado.
 Acho que est absolutamente certa. Entrou no quarto deles e olhou ao redor. Era a primeira vez que via o aposento, ou melhor, que se recordava de ter feito isso. O ambiente era amplo e com decorao moderna.
Cindy devia apreciar muito a cor branca, notou. A colcha e as cortinas eram de renda alva como a neve. As paredes, em clido tom de amarelo, emprestavam doura e harmonia. Uma aura de paz pairava no ar.
Infelizmente, porm, ele apenas admirava a beleza do aposento. No se lembrava de t-lo visto.
Devia parar com cobranas dessa natureza. Suspirando, afastou a colcha e entrou sob as cobertas. Sentado, sorriu para a esposa, aguardando que se juntasse e ele.
Atnita, Cindy passeou o olhar pelo peito nu. Quantas vezes j o vira assim? E, apesar disso, aquela parecia ser a primeira... Sentia-se nervosa.
Como uma noiva, ponderou.
Acomodou-se, hesitante, a seu lado no leito, apoiando-se nos cotovelos.
 A maioria dos homens no passa a noite de npcias ao lado de uma mulher prestes a dar a luz, no  mesmo?
Brady riu de sua expresso sria.
 V como sou privilegiado? Nada mais doce e feminino do que uma barriguinha crescida. Os outros mortais tm de esperar um bocado para apreciar o que j tenho. Alm do mais, isso aconteceu agora apenas porque eu desapareci. Agora voc me tem.
 Tenho mesmo? De verdade?
 Foi isso que juramos h pouco. Ser um do outro por toda a vida. J se esqueceu?  brincou, estranhando a demonstrao de insegurana.
Afinal, casara-se com ela. Talvez a gravidez a deixasse assim fragilizada.
 No estou interessada em um pedao de papel, mas na vida que teremos daqui para frente  justificou-se.
Como resposta, Brady cobriu-lhe a mo com a sua, exatamente sobre o corao.
 Ento me fale a respeito.
 Eu... no sei.  Sorriu ao perceber o batimento acelerado do corao de Brady.  Como bate depressa!
Por sua causa, pensou ele, resoluto.
Mas ainda no encontrara uma forma de lhe contar que a amava. Ou talvez no se sentisse preparado para expor em voz alta o que guardava no peito.
 Sim, muito. No momento apenas posso lhe dizer o que quero do futuro. O melhor. E espero ansiosamente pelo nascimento do beb.
  mesmo?  indagou, surpresa. Parecia espantada com a afirmao.
 Por que me olha desse jeito?  claro que sim. Quem no estaria?
 Bem, bebs no so como livros de fsica. No se pode coloc-los numa prateleira quando se estiver ocupado, e no se importar mais com eles at que se sinta descansado e tranqilo.
Ele sorriu ante a analogia.
 Jamais deixo meus livros em qualquer lugar, e raramente estou ocupado demais para lhes dar ateno. Gosto de t-los por perto. Ao menos  assim que me sinto desde que me distanciei do passado. Mas antes tambm deve ter sido dessa forma.
Tocou-lhe a face delicada e um desejo intenso o dominou. Mas nada poderia fazer para san-lo. Aquele era o momento de fazer com que Cindy se sentisse mais segura, no de pensar nas prprias sensaes.
 Tudo dar certo. Ainda ignoro como, mas dar. Confie em mim.
 Pensei que no fosse um otimista.
 E no sou. Mas tenho passado bastante tempo ao lado de algum assim.  Beijou-a na testa.  Dizem que um bom exemplo tem um poder valioso.
Quase nove meses de gravidez e ela se sentia incendiar de desejo a um mero e cndido beijo na testa, constatou.
 Ser este o melhor tratamento que receberei? arriscou dizer.
Ele sorriu e a beijou longamente. Quando se distanciou, comentou, sem flego:
 Puxa, voc beija de um jeito to gostoso...
Olhou de relance para o relgio de cabeceira.
 Terei de acordar cedo amanh.  Entraria s sete horas. Fitou-a tristemente.  Acho que eu devia ter tirado uns dias de folga.
Mas que hora inapropriada para lamentaes! repreendeu-se ele.
 Tudo bem. Esteve ausente por cinco meses. Ficaria desagradvel tirar uma semana de frias agora.
Cindy no cessava de surpreend-lo.
 E voc aceita isso sem se aborrecer? Parecia aliviado, pensou ela. O velho Brady tambm esperaria que fizesse concesses.
 No se preocupe. No  hora para cobranas. Voc passou por maus momentos e precisa de paz.
 Voc  uma moa especial. Muito. Eu j lhe disse isso?
 No.
Observou-a. Essa mulher fantstica optara por uma cerimnia de casamento simples, mas nada havia de comum nela. Ao contrrio, era deslumbrante, soberba, maravilhosa.
 Ento eu era um tolo.
 No concordo. Era envolvente,  sua maneira.
 Eu trabalhava demais e no a levava para passear ou danar, mesmo sabendo quanto voc gostaria disso. Por que... ficava comigo mesmo assim?
 Porque eu o amava.
Isso no respondia  sua pergunta. Tinha de saber a mais absoluta verdade. Poderia ser a chave para entender a si mesmo.
 Por qu?
 No h explicao para o amor. No  racional. Apenas sentimos. E se nada se manifesta em nosso corao, no adianta forar.
Brady ainda no compreendera, mas pressentia que abordar o assunto de maneira lgica no era o melhor caminho.
 Parece to... sem p nem cabea. Cindy riu e o beijou.
  mesmo. Mais para voc do que para mim. Abraou-a.
 Talvez eu esteja comeando a entender  murmurou, e baixou a cabea lentamente, para um longo beijo.
Torpor instantneo. Desejo. Ela queria muito fazer amor com Brady. Como antes. Enlaou o pescoo forte e se perdeu nas delcias da boca mscula. Suspirou ao ser beijada no queixo, nas orelhas, nos ombros. O calor do hlito dele a ensandecia.
Sim, a magia continuava presente. Soberana.
 Estou esperando por este beb com muita ansiedade  Brady murmurou.
 Por qu?
 Para conhecer meu filho, claro. E para podermos consumar nosso casamento.
Ela era sua alma gmea, tinha certeza. E se sentia excitado ao pensar que a possuiria com toda a urgncia de seu desejo. Chegava a sentir dor, tal  vontade que o dominava.
Respirando fundo, acariciou-lhe as costas lentamente.
 Sei que no poderei fazer amor com voc esta noite, mas ao menos vou abra-la at adormecermos.
Para imenso prazer de Cindy, foi exatamente o que ele fez.
Ela estava em p, apoiando o peso do corpo ora numa perna, ora noutra. Franziu a testa, segura de si. Voltou-se para Brady.
 No precisa fazer isso, voc sabe.
Ele chegara do trabalho e a encontrara pronta para sair, um travesseiro sob o brao. Solicitara-lhe apenas cinco minutos para pegar uma ma e estar pronto.
 No tenho de fazer o qu?  indagou, com as chaves do carro na mo.  Ir ao curso para gestantes com voc?
Cindy deu de ombros. No gostaria que ele se sentisse obrigado a acompanh-la, s isso.
 s aulas e...  sala de parto.
 E por que no me quer l?
Ela deixou escapar um suspiro. Ultimamente, vinha se sentindo cada vez mais tensa.
 No  isso. No quero que se sinta obrigado a nada.
Tinha uma boa razo para ser to firme. Brady sempre fora cumpridor de suas responsabilidades. E seu orgulho de mulher simplesmente no lhe permitia aceitar sua companhia nesses termos.
 Bem, j que estarei na sala de parto,  bom
que v me familiarizando com os acontecimentos. Faz sentido, certo?
Cindy ficou em dvida. Todas as outras aulas haviam acontecido durante o horrio de almoo, mas o orientador tivera um imprevisto e mudara a daquele dia para o horrio noturno. At ento, comparecera a todas sozinha. E se sentira terrivelmente solitria.
 Sim, mas...
Brady abriu a porta da frente e aguardou sua passagem.
 No discuta comigo e entre no carro, menina.  Ante sua hesitao, perguntou:  O que foi dessa vez?
 Est agindo assim de livre e espontnea vontade?
 Sim. Fico assustado s em imagin-la gritando de dor  revelou com honestidade.
 Ento por que insiste em ver? Eu terei de passar por isso de qualquer maneira, mas voc tem a opo de evitar.
No tinha. Queria estar presente. Por ela.
 Estive a seu lado quando fizemos esta criana e juntos ficaremos at o final.  uma questo de companheirismo e de justia.
Abriu a porta do carro, para que ela entrasse. Mas Cindy no estava se importando com a justia nesse momento, e sim com sentimentos.
 Mas...
Com muita gentileza, Brady forou-a a sentar-se.
 E acho que precisa de mim  continuou, como se ela nem houvesse protestado.  Esse motivo me basta. E agora, que tal me passar o endereo? Ou quer se atrasar?
 Eu o orientarei.
 Mas que maravilha!  exclamou, bem-humorado, ao sentar-se no banco do motorista.  Finalmente venci uma discusso.  a primeira vez que isso acontece?
 No. Voc me convenceu a me casar  lembrou-lhe.
Brady ligou a ignio.
 No tive de insistir tanto assim, tive?
 No  admitiu ela.  No muito.
 Est bem.  Deixaram o quarteiro.  E agora, qual o caminho?
 As aulas esto sendo ministradas no hospital Harris Memorial. Vire  esquerda no farol.
Apontou, para sinalizar o que j expressara em palavras. Tinha mania de usar as mos para enfatizar o que dizia. E Brady adorava esse seu jeito.
Estrelas salpicavam o firmamento de prateado quando eles saram do hospital, duas horas mais tarde. A aula acabara. Como era a ltima sesso, o instrutor fizera questo de repassar os pontos mais importantes abordados durante o curso. Cindy se sentia mais do que preparada para a emocionante tarefa de ser mame.
Brady contemplou o cu. A noite estava esplendorosa. No lhe dava vontade de voltar para casa.
 Gostaria de dar um passeio?
Ela o fitou, incrdula, no reconhecendo mais o homem que dizia detestar dormir tarde durante a semana. Interferia no rendimento do trabalho no dia posterior, costumava argumentar.
 No est meio tarde?
 Sim, mas notei que h um pequeno caf no caminho de volta do trabalho.  novo, acho. Havia um cartaz avisando que estariam abertos hoje at as nove horas. A noite est perfeita para admirar estrelas.
Cindy levou alguns segundos para absorver o sentido das palavras. Era de espantar.
 Est ficando frio...
 Basta abotoar seu casaco  argumentou Brady, providenciando para que o dela a protegesse at o pescoo.  Uma noite to bela no merece ser desperdiada.
O calor em seu olhar a contagiou. Aqueceu. Brady estava sendo... romntico, concluiu. Era melhor se certificar.
 Mesmo aps o vdeo mostrado pelo instrutor? 
Diversos homens e mames de primeira viagem haviam ficado plidos durante a apresentao das imagens. Cindy at imaginara que a qualquer momento Brady se levantaria para dar uma volta pelos corredores, a fim de se livrar daquelas cenas. Mas, em vez disso, ele permaneceu a seu lado, segurando-lhe firmemente a mo durante todo o tempo.
 O vdeo foi impressionante porque nenhum de ns est acostumado a ver um parto. Mas o prmio compensa os esforos, no ? Juro que, se eu pudesse, partilharia a dor que voc vai sentir. J que no  possvel, ento dividiremos de outra maneira.
 Obrigada. Eu precisava ouvir isso.
Cindy deu-se conta mais uma vez de que as ltimas semanas estavam sendo um sonho. E a vida ao lado de um homem assim era agradvel e colorida.
Se o fosse descrever para algum, diria que Brady mudara para melhor, embora sempre tivesse sido honesto e companheiro. Estava mais humano, sensvel. Tomara que as mudanas perdurassem.
 Adoraria conhecer o novo caf. Talvez eu tome um chocolate quente.
 Boa idia.
 Com bastante chantili?
 Tanto que nem ser capaz de erguer sua xcara sem causar um estrago na toalha.
Cindy sorriu.
 Oh, darei um jeito, no se preocupe.
As estrelas pareciam alojar-se ao redor de onde os dois se sentaram. A noite fria os deixava corados e os fazia sentir-se felizes por estar vivos. Vivo, pensou ele, e com a mulher certa a seu lado.
Eram os nicos clientes acomodados ao ar livre, embora houvesse mais meia dzia de mesas ali fora. Cindy pegou a xcara e bebericou um pouco de seu chocolate fumegante. Se ainda no estivesse apaixonada, certamente essa noite a teria conquistado por completo.
Talvez ela tivesse razo, considerou Brady, preocupado. No gostaria que ficasse resfriada perto de dar  luz.
 Est muito frio para voc?
Cindy sorriu, feliz.
 No. Tenho um chocolate e voc para me aquecer. Estou muito bem.  Suspirou.  E o cu est lindo.
Brady poderia observ-la durante a noite toda. Conhecia to pouco a respeito dela...
 Fale-me sobre voc, Cindy. Conte-me coisas que ainda no sei.  Isso, percebeu ele, inclua um territrio imenso. Era melhor ser mais especfico.  Como era quando criana? Gostava de comer espinafre? Colava psteres na parede e escrevia cartas apaixonadas a mocinhos de grupos de rock, que jamais lhe respondiam?
Cindy levantou a mo para deter a avalanche de perguntas. Haviam ficado juntos pouco mais de dois anos. Tinha lhe contado como era, mas de modo espontneo. Brady nunca solicitara quaisquer informaes nem parecera particularmente interessado em saber alguma coisa. Apenas a deixara falar  vontade. Nada indagara.
O fato de ele querer saber sobre sua vida a aqueceu mais ainda.
 Tenho duas irms, ambas mais velhas. Meus pais vivem no estado de Washington. Detesto espinafre, mas no devemos deixar nosso filho saber disso. E nunca colei psteres nas paredes, nem escrevi cartas a astros de rock. E jamais me apaixonei... at conhecer voc.
Era esse o ponto mais difcil de acreditar. Cindy era vibrante, cheia de vida, animada. E ele era exatamente o oposto.
 Mas logo por mim, um cientista frio e distante?
Sua modstia nada mudara, constatou ela, atenta. Continuava a ser o mesmo homem inseguro quanto  prpria aparncia, sem a mais tnue idia do efeito devastador que tinha sobre as mulheres, que arregalavam os olhos quando o observavam passar.
  comum dizer que os opostos se atraem. Talvez seja verdade.
 Como nos conhecemos?
 Como nos conhecemos...  repetiu ela, procurando se lembrar.  Chovia. Voc se ofereceu para me acompanhar at o carro.
Sentira-se intensamente atrada por seu cavalheirismo. E pelo rosto lindo.
 Confiou em um estranho?  inquiriu ele, incrdulo.
 Tinha jeito de honesto.
 Alguns gngsteres tambm tm.
 Verdade? Mas no encontrei nenhum em meu caminho. S voc. E adorei.
 Por qu?
 Minha intuio me confidenciou que eu estava diante do homem certo, por quem esperava h tanto tempo. Mulheres sabem dessas coisas.
Brady gargalhou, entrando no esprito da conversa. 
 Haveria algo mais sem lgica?
 No, e  exatamente este o ponto. s vezes a razo atrapalha. De qualquer maneira, voc me acompanhou at meu carro e ento. notamos que eu esquecera os faris acesos e que a bateria acabara. Cavalheiro, o senhor me conduziu de volta ao supermercado, para que eu chamasse meu mecnico.
 E ento?
 Enquanto aguardvamos, fomos a uma lanchonete tomar um lanche. Um local parecido com este  comentou, contemplando ao redor.  S que muito barulhento.
Cindy brincou com a aliana que enfeitava sua mo esquerda.
 Quando o mecnico chegou, voc me convidou para sair.  Fitou-o, pensativa. No devia faltar com a verdade.  Na verdade  corrigiu-se  eu o chamei para um passeio, porque voc estava sendo lento demais.
Isso era mesmo tpico de Cindy, concluiu ele, divertido.
 Como aconteceu?
 Eu lhe disse que tinha dois ingressos para um musical e ningum para me acompanhar.
Brady acabou de tomar o caf.
 E voc tinha mesmo os convites?
 Est pegando o jogo com rapidez, hein? Eu os reservei assim que cheguei da rua. Bem  falou, suspirando, ao afastar a xcara vazia  foi assim que nos conhecemos. Lembra-se desses episdios?
 No.
Ainda parecia existir um paredo entre sua conscincia e a memria. Nada mais lhe retornara desde a retomada de suas atividades no Laboratrio Edmond. Mas, felizmente, deixara de se sentir to deprimido.
Em vez disso, estava satisfeito com o que tinha. E com Cindy.
 Pronta para voltar para casa?
Ela assentiu e ficou em p. Casa. Lar. As palavras lhe soavam mais acolhedoras do que nunca.

CAPTULO IX

Dois fregueses saram da floricultura. Cindy suspirou ao ver a porta se fechar. Anthony ajeitava trs arranjos dentro da perua de entregas. Ela sentia a cabea latejar e uma moleza incrvel invadir seu corpo. Parecia ser o dia mais longo de toda sua vida.
Passou a mo pela testa e observou Terry atender ao telefone.
 Mal posso esperar que este dia termine  suspirou, expressando os pensamentos em voz alta.
Terry pegou as duas folhas onde estavam os pedidos anotados por Cindy e anexou mais uma. Foi at a sala dos fundos e estendeu os trs para Juanita, mas seus olhos estavam fixos na dona da loja.
 Mas que coisa estranha para uma mulher romntica dizer no dia dos namorados!  A garota tomou um gole do refrigerante que mantinha ao lado da caixa registradora.  Especialmente quando se  dona de uma floricultura...  Seu rosto suavizou-se.  O beb est se mexendo muito?
Seria eufemismo dizer que sim. A criana estava jogando uma partida de futebol dentro de sua barriga, e isso h dois dias. Riu e pegou a lata de soda da mo de Terry. Bebeu longamente antes de responder.
 Gostaria que ele, ou ela, se apressasse e viesse nos dar uma ajuda. No me recordo de dias mais estafantes. Hoje est ainda pior que o dia das mes.
 Pior?  Terry repetiu.
 Sabe o que quero dizer. Atarefado. Cansativo.
Cindy se virou e olhou para a vitrina. Em breve teriam de se desfazer dos arranjos da exposio. As pessoas deixavam para comprar flores na ltima hora e sempre era difcil fazer uma previso acertada da demanda. Solicitara ao fornecedor o dobro da quantidade usual, e mesmo assim seria insuficiente.
Todos pareciam estar apaixonados, esse ano. No os culpava. Amar era mesmo maravilhoso. Sorriu. Nada disso, era completamente estarrecedor.
Terry estudou sua melhor amiga.
 Sabe que no  preciso que fique aqui hoje.  o dia de dar  luz. Cuidarei de tudo, fique descansada.  Acenou em direo  saleta dos fundos. 
Eu poderia ter solicitado a Juanita que trouxesse seus irmos para nos auxiliar com os pedidos.
Cindy sabia dessa possibilidade, mas precisava estar ali, manter-se ocupada para se esquecer do mal-estar.
 No poderia ficar sentada em casa, aguardando que as contraes comeassem. Alm do mais, acho que o movimento apressa o parto.
Estava curiosa por conhecer seu filho, e exausta pela longa espera.
 Oh, muito obrigada!  a moa ironizou.  Sabe muito bem como fico nervosa em situaes delicadas.
Cindy riu, balanando a cabea. Pegou mais um vaso da vitrina. Juanita tinha usado as flores ali acomodadas para fazer mais um arranjo.
  disso mesmo que preciso. De apoio. Ouviu a porta se abrir e rapidamente passou os olhos pelo parco estoque. Esperava que o cliente no estivesse  procura de cravos vermelhos. J no havia mais nada assim.
Escutou som do motor do carro de entregas se afastando. Anthony devia estar ansioso por ver sua namorada, mas ainda teria bastante trabalho antes disso. Arrumou um buqu de margaridas em um vaso e se virou, para coloc-lo sobre o balco.
 Oi.  O vaso quase foi ao cho. Ela assustou-se ao ver Brady.  Algo errado?
Cindy perscrutou-lhe a expresso. A memria teria voltado? O que mais o levaria  loja, em pleno horrio de expediente? Devia estar trabalhando. Brady jamais saa mais cedo.
 Absolutamente nada.  que... voc est aqui e so apenas cinco horas.
 Bem, como nosso beb parece ter se recusado a nascer hoje, resolvi lev-la para jantar fora.
 Jantar fora?
Ele sempre achara uma bobagem comer fora de casa. A comida nunca era to boa, costumava se queixar.
Seus pensamentos foram interrompidos quando Brady a puxou levemente pela mo.
 Sim, a um lugar onde servem uma refeio gostosa e onde se pode conversar tranqilamente.
 Sei disso.  Ela ouviu Terry abafar uma risada e a fitou com olhar reprovador.  Mas qual o motivo do convite?
Era impressionante como Cindy queria explicaes para seus gestos mais simples, ponderou Brady. Devia ter sido um companheiro pouco atencioso. Mas esse era um erro que fazia questo absoluta de reparar. E, quanto antes, melhor.
 No sabe mesmo?  indagou, tocando um cupido pendurado perto de sua cabea.  Hoje  dia dos namorados. A data merece algo especial.  Fazendo um gesto teatral, voltou-se para Terry e pediu:  Por favor, flores!
 Flores!  anunciou prontamente a moa.
 Flores  reafirmou ele, convicto, ao estender um buqu para Cindy. Observou-a pegar o presente. Segurava-o como se nunca tivesse visto algo parecido em toda a sua vida.  Sei que  um dia atribulado na loja, mas...  Parou de falar e ergueu-lhe o queixo.  Cindy, voc est chorando?
No houve resposta. Ela no conseguiria falar. S era capaz era de continuar fitando o buqu. Brady abraou-a.
  o beb, querida? Est tendo contraes? Mordendo o lbio, ela fez um meneio com a cabea, indicando que no.
Se no era a criana, devia ser ele o culpado por esse sofrimento. Mas o que fizera de errado?
 Ento o que foi? Diga-me, por favor.
Ela respirou fundo, na esperana de voltar a ter domnio sobre a prpria voz.
 Voc... nunca me deu flores.
Brady ficou aturdido. Teria julgado redundante dar flores  dona de uma floricultura? Quaisquer que tivessem sido suas razes, estivera errado. Demais.
 Pois deveria ter dado  disse com suavidade.  Est pronta para ir?
Uma forte sensao de culpa a tomou. Queria sair para um passeio com Brady, mas tinha tarefas a cumprir.
 Ainda no fechei a loja.
Terry gesticulou, indicando que se encarregaria disso.
 No se preocupe com nada. Se tivesse dado  luz hoje, eu estaria cuidando de tudo, no  mesmo? S faltam algumas horas para o fechamento. Juanita e eu faremos o restante do trabalho  falou em voz mais alta, virando-se para
a sala dos fundos:  No , Juanita?
Uma pequenina mulher de cabelos escuros apareceu. Trazia nas mos o ltimo ramalhete de rosas disponvel, enfeitando um vaso de vidro.
 Ela ainda est aqui?  Juanita perguntou para Terry, incrdula.  Achei que a essa hora j tivesse partido!
Balanou a cabea, censurando a futura mame por se esforar tanto.
Cindy deu um longo suspiro, mas era indisfarvel o prazer que fazia seus olhos brilharem.
 Adoro o apoio que me do.
Em resposta, Terry estendeu a bolsa de Cindy para Brady e indicou a porta.
 Vamos  disse ele.  Fiz reserva para as cinco e meia.
 Para onde iremos?
 Para o Aphrodites. Gus disse que talvez passasse por l mais tarde.
Ela riu, acariciando as flores.
 Mas que romntico!
Romance.  claro, Cindy esperava por um romntico jantar a dois. Um lugar lotado como aquele no servia, ele considerou, chateado.
 Se no quer que Gus v...
Um dedo delicado o fez calar-se. O homem estava se tornando to perfeito que at a assustava.
 Eu s estava brincando. E gosto de Demi. Sabia quanto lhe era importante que gostasse de seus amigos e sentia-se feliz em poder ser honesta a esse respeito.
 Vocs poderiam pedir que ele desse uma passadinha aqui  sugeriu Terry, nada sutilmente.  Eu acharia de bom gosto ter um grego charmoso
em minha vida...
Ambos sorriram e porta se fechou atrs do casal.
 Ela gosta de Gus  comentou Cindy.
O carro estava estacionado na esquina. Cavalheiro, ele abriu a porta e a ajudou a acomodar-se.
 Como percebeu?  ironizou, maroto. Senso de humor, pensou, satisfeita. Era muito agradvel essa nova caracterstica da personalidade de Brady. Uma qualidade que at ento devia ter estado adormecida.
Pela primeira vez desde o reencontro, Cindy j no sabia se desejava que a memria dele retornasse. Era egosmo de sua parte, sabia, mas admitia que preferia o novo Brady ao de outrora.
 Est quieta demais  observou ele. Aquela hora, o trfego intenso absorvera plenamente a sua ateno. Fitou-a. Estaria adoentada?  E essa caracterstica no lhe  peculiar.
 Estou contando as graas que a vida tem me dado.
 Isso sim,  tpico de seu modo de ser.  Cindy era a personificao do otimismo.  E sua conta chegou at o nmero...?
 Oh, acho que beira o infinito.
 Infinito... Ele perscrutou-lhe a expresso, para entender a dimenso de suas palavras.
 E eu por acaso me encaixo em algum cantinho?
 Est no topo da lista, meu caro.  voc quem faz esse infinito.
Cindy prendeu a respirao ao sentir uma pontada esquisita. Puxa, esse beb tinha um chute fenomenal!
 Talvez devessemos ir para casa, considerou ele ao notar-lhe a palidez. Algo errado?
 S uma pontada.
Um sinal de alerta, constatou, preocupado. Debatia-se entre ir para casa ou para o restaurante.
 Como assim?
 Relaxe. Isso j vem acontecendo h dois dias.  Acariciou o abdmen. Parecia que sua pele se esticara ao mximo. Mais um milmetro e se romperia, brincou consigo mesma.  Ter um filho pode ser nobre e natural, mas no  divertido.
Ele no supunha que carregar tamanho peso fosse uma tarefa fcil, apesar de toda a beleza dessa nova pessoa que em breve faria mais parte ainda de suas vidas. Seu beb.
 Gostaria de ter mais filhos?  perguntou, curioso.
 Mais. Sim, provavelmente. Cindy sorriu. Deixe-me ter este e ento voltaremos ao assunto, est bem? E voc, tem vontade?
Brady entrou no estacionamento que ficava atrs de Aphrodites.
 Acho que sim.  Parou entre dois carros esportivos e puxou o freio de mo. Permaneceu parado durante alguns instantes, pensando. Imaginando  Uma coisa eu sei com absoluta certeza  disse, sorrindo.  Eu definitivamente vou querer me recordar de todos os momentos, desde o princpio.
 Oh...
As palavras a seduziram. Pressentia que esse novo Brady era ainda melhor amante do que o anterior. E desejava confirmar isso to logo quanto possvel.
Sorriu quando ele lhe abriu  porta.
 Ento, vai me deixar participar do jogo desde o incio da partida?
Cindy aceitou o brao que lhe era estendido e ps-se de p. J era hora de coloc-lo a par de tudo. Uma questo de justia.
 Lembra-se daquela discusso que tivemos no dia de seu desaparecimento?
 Aquela que voc disse no ter envolvido nenhum assunto especfico?
 No foi bem assim.  Respirou profundamente para se imbuir de coragem.  Falamos sobre filhos.
Algo na voz melodiosa o alarmou.
 O qu, exatamente?
Cindy olhou para o cu. Nada de estrelas nessa noite. Uma pena, seno os namorados poderiam fazer pedidos.
 Voc no os queria. Disse-me que o mundo no merecia seus filhos.
 Mas voc j estava grvida.
 Sim, mas ainda no havia lhe contado.
Brady sentiu-se culpado. Imaginou como ela devia ter se sentido ao ouvir uma coisa dessas. Ps um brao sobre seus ombros e vagarosamente a conduziu para o restaurante.
 Deve ter sido muito difcil lidar com isso. Com suportava viver a meu lado?
Era uma pergunta complicada. Delicada.
 Porque, apesar disso, voc era um homem maravilhoso. E eu o amava.
 Amava?
Cindy passou os dedos sobre as ptalas das flores. Terry felizmente as tinha acondicionado em um pequenino vaso de vidro com gua, o que lhe permitiria lev-las para o restaurante.
 Amo  corrigiu. Planejava s fazer essa revelao depois que Brady assumisse os prprios sentimentos, mas a ocasio pedia que abrisse seu corao.  Eu o amo.
 Hei, sinto muito interromper a conversa, mas vocs pretendem entrar no restaurante ou no? Gostaramos de jantar...
S ento perceberam que estavam bem na passagem. Viraram-se, para ver um homem corpulento acompanhado por uma mulher enrubescida, que parecia estar lhes pedindo desculpas com o olhar.
 Vamos entrar  Brady respondeu ao abrir a pesada porta de madeira.
Cindy desejou que o casal tivesse aparecido um minuto mais tarde, para que pudesse ter ouvido as palavras que h tanto desejava escutar.
Mais tarde talvez, consolou-se.
Ao entrar no salo, o calor do ambiente imediatamente a acarinhou, como o abrao de um amigo. Ao delicioso aroma de comida se unia o fogo suave das velas que enfeitavam as mesas. Abriu o casaco.
 Teremos a melhor mesa da casa  Brady garantiu.  Longe da cozinha e do vaivm dos garons. Ajudou-a com a cadeira antes de murmurar:  Hoje eu a quero somente para mim.
 Acho que Gus pensa diferente  falou ela, ao notar a aproximao do policial.
 Oh!
Brady havia se esquecido completamente do amigo. Gostaria de ficar alguns minutos com ela a ss, para terminar a conversa iniciada  porta do restaurante.
 Eu poderia insinuar para que se retirasse. Cindy gostou que ele houvesse feito essa sugesto. A inteno contava bastante.
 Do estabelecimento da irm dele?  melhor no. Alm do mais, teriam todo o tempo do mundo para trocar confidencias. Por ora, devia alegrar-se em admir-lo. Considerava um verdadeiro milagre o modo como ele estava se tornando mais socivel a cada dia.
Gus se achegou, surpreendendo Cindy com uma caixa de chocolate.
 Para voc. Ento o beb est com preguia de nascer, hein?
Cindy sorriu. Mais uma pontada a atingira h alguns minutos, mas no deixara Brady perceber para no preocup-lo.
 Acho que ele ou ela decidiu que est mais seguro aqui dentro.
 Posso entender!
Era estranho, mas Cindy havia se esquecido de como era no estar grvida. Vestir cala jeans justa, dormir de barriga para baixo. Devia ser bom.
 Explique-nos por que um homem to bem-apessoado no tem um encontro no dia dos namorados.
 Eram tantas garotas que no consegui me decidir  brincou ele.
Mas nada srio com nenhuma, pensou Gus. Havia sido divertido ser um solteiro convicto durante tanto tempo, mas j comeava a se cansar dessa situao. Talvez tivesse amadurecido.
Seus amigos estavam casados ou noivos, preparando-se para construir suas famlias. Como Brady, considerou ao fit-lo. Quem sabe seu dia tambm estaria prximo?
 Pobrezinho...  Cindy provocou.
Ele poderia se ajeitar com uma garota assim que o desejasse, podia apostar. Apenas ainda no queria. Mas, quando se sentisse preparado, a mulher da sua vida seria conquistada pelo seu charme encantador.
 Ento, como vai meu casal de namorados preferido?
Havia afeto na voz de Demi quando se juntou ao grupo. Fez um meneio em direo ao irmo, a expresso propositadamente solene.  Gus!
 Ela sempre se aborrece quando tem de me servir  confidenciou-lhes o policial, em tom de provocao.
Demi ps as mos na cintura e falou:
 Ento diga-me o que mudou desde nosso tempo de garotos. Voc sempre gostou de me irritar.
Brady abriu o cardpio mas fechou-o em seguida. Sabia o que queria. Era mesmo uma pessoa de hbitos arraigados. Quando encontrava algo de que gostava, pensou, contemplando Cindy, permanecia firme  primeira impresso.
  bom para a formao de seu carter, maninha. Demi lhe deu um tapinha nas costas e voltou-se ao casal. Cindy ainda nem abrira seu cardpio.
 E ento, o que gostariam de comer?
Ela ia protestar que, dado seu avanado estgio de gravidez, estava sem fome. Mas as palavras se transformaram em um gemido ao sentir uma contrao muito mais forte do que as anteriores.
 A especialidade da casa  muito boa  murmurou Demi, no se dando conta do que ocorria. Mas ento, ao fit-la com ateno, ficou preocupada.  Voc est bem?
 Acho que no  Cindy ouviu-se responder. Subitamente, tudo pareceu ficar fora de foco.  Eu... oh!
A sala passou a girar, e os sons se fundiram num burburinho alto e perturbador. As luzes das velas se mesclaram em um colorido arco-ris. Ela engoliu em seco, lutando contra a escurido que ameaava engolf-la.
 Cindy!
Seu nome. Algum a estava chamando. Brady repetia seu nome sem parar. Preocupao. Havia angstia em sua voz.
Buscou foras em algum lugar e julgou ter posto um sorriso nos lbios.
 Cancele o jantar, Demi  Brady pediu.   hora de levarmos Cindy ao hospital.
Estavam se esquecendo do mais importante, ela notou.
 Hei!  Os dois homens a fitaram.  Sou eu quem deve dizer se  a hora.  Outro espasmo a tomou.  Est na hora  sussurrou, sem ar.
Gus assentiu enquanto Brady cuidadosamente a punha de p e murmurava:
 Tambm acho. Consegue caminhar?
Sem esperar pela resposta, pegou-a nos braos.
 Estou muito pesada  protestou ela. Brady no havia antecipado tanta bravura em um momento assim. Ainda tinha muito a aprender a respeito daquela mulher, concluiu. E tinha plena inteno de fazer isso com calma e pacincia. Sabia que a tarefa demoraria toda uma vida para ser completada.
 Como ainda no jantou, est leve. Fique sossegada. Demi, por favor, avise o hospital de que ela est a caminho.  o Harris Memorial, em Newport. E ligue para a mdica, dra. Sheila Pollack.
Apesar da dor, Cindy no deixou de ficar impressionada. Ele se recordara do nome da mdica!
 Parabns!
Brady sorriu.
 Eu presto bastante ateno a tudo que envolve voc, mocinha.
Cindy se contorceu de dor.
 Vamos l, mame. Eu a deixarei tocar a sirene da viatura  Gus falou carinhosamente enquanto os conduzia at o carro.


CAPTULO X

Gus passou o sinal vermelho com a sirene ligada e deu uma olhadela pelo espelho retrovisor. Brady abraava Cindy e suas mos estavam entrelaadas. Pelo que o ngulo lhe permitia ver, ela agarrava os dedos do marido com tamanha fora que as juntas de ambos deviam estar esbranquiadas.
 Vocs esto bem?
Cindy arfou ante mais uma contrao. Se mordesse mais o lbio inferior, se machucaria.
 J estive melhor  disse, agoniada. E como!, acrescentou em pensamento.
Brady apertou-lhe a mo. Droga, sentia-se to impotente!
 H algo que eu possa fazer por voc?
 Pea a algum que tenha o beb por mim.
 Querida...
Ela se debatia,  procura de uma posio em que a dor a torturasse menos. Mas era impossvel. Esse lugar no existia.
 Sei que o esforo valer a pena, mas no estou agentando.
Aps suportar sensaes esquisitas durante dois dias, no via a hora de, por fim, conhecer seu filho.
 Demi chamou a mdica  Gus lhe assegurou pela terceira vez.  Tenho certeza de que j estar no hospital quando chegarmos l.
Brady olhou pela janela. Tinha suas dvidas quanto a isso. O policial voava, to agilmente dirigia. Estavam a poucos minutos do local.
 Apenas se ela morar nas cercanias. Cindy tentou se concentrar no que estava sendo dito a seu respeito e no no que se passava em seu corpo. Um fragmento das palavras da doutora lhe passou pela mente.
 Ela mora perto  murmurou.  Em um condomnio localizado atrs do hospital.  Prendeu a respirao ao sentir mais um espasmo. 
Espero que esteja em casa esta noite  acrescentou entre os dentes.
Gus postou o carro junto  entrada de emergncia.
 Pois  o que vamos descobrir  comentou ao descer rapidamente.  Fiquem aqui  gritou, e sumiu dentro do hospital.
Em dois minutos, retornava, com uma enfermeira e uma cadeira de rodas.
Brady acariciou a mo de Cindy. Ajudou-a a sair e a se acomodar. Ela sentiu umidade nas pernas. A bolsa rompera. Fez um gesto com a cabea, em sinal de agradecimento. Jamais conseguiria descer, quanto mais caminhar, sozinha.
 Sra. Lockwood?  perguntou a enfermeira.
 Sim  Brady e Gus responderam ao mesmo tempo.
A moa fitou a ambos com curiosidade.
 A dra. Pollack j chegou. Receberam um aviso h quinze minutos e prepararam tudo para a chegada de Cindy.  Transpirando eficincia, ela acrescentou:  Por favor retire o carro deste local, est bem?
 Sim, eu o porei no estacionamento  respondeu Gus, relutante em ir para casa.  Brady, ficarei por aqui at o beb nascer.
 H um hall de espera no quinto andar. E para pais que no querem ficar na sala de parto.
Gus assentiu, falando:
 Fica bem prxima, ento.
 Obrigado por ter nos trazido. Eu o manterei informado  prometeu.
Notou que, apesar da dor, Cindy sorria. Estavam tendo um filho! Com ar autoritrio, a moa pegou uma prancheta e disse:
 Faremos o registro rapidamente.
 J foi feito  a parturiente falou, arfante.  Na semana passada.
A ltima coisa que desejava era aguardar enquanto algum fazia a checagem de seus dados junto  companhia de seguros de sade.
 Est bem, ento vamos diretamente para a mdica.
Sim, pensou Cindy enquanto passavam por corredores, rumo ao elevador.
Ela parecia to exausta, e nada havia que Brady pudesse fazer para auxiliar. Uma frustrao que superava a de no ser capaz de se lembrar de seu passado.
No fundo, j se achava sabedor de tudo que precisava. Sabia que a amava, que faziam parte da vida um do outro. Cindy era sua vida. Todo seu mundo estava nesse hospital, sobre uma cama.
Pegou uma colher cheia de pedacinhos de gelo e a estendeu para ela.
 No, obrigada. Estou bem.
Cindy nunca se sentira to sem energia. Nem mesmo quando ela e a irm Alice se perderam em um passeio a cavalo e ficaram cavalgando por horas at encontrar o caminho de volta.
Havia sido um piquenique, se comparado ao que passava nesse momento. J estava em trabalho de parto h cinco horas. Quando chegara ao hospital, tivera a sensao de que o beb nasceria em minutos. Mas o tempo foi passando e a criana se recusava a chegar.
 Deve ser por isso que deram o nome de trabalho. Nunca trabalhei tanto!
 Sinto muito  disse ele, pegando-lhe a mo.
 Por qu?
Sim, por que estaria pesaroso? Era um homem maravilhoso!
Brady aproximou uma cadeira da cama e se sentou. Tornou a acariciar-lhe a mo.
 Por tudo. Pela dor que sente, por no me lembrar do nosso passado.
Cindy gostaria de lhe fazer um afago na cabea, mas o gesto exigiria uma energia que absolutamente no possua.
 No pense assim. No h o que desculpar.
Brady pensou na criana. Como queria esse filho! Mais do que tudo no mundo. Ansiava por ter o beb nos braos.
 O nen...
 Estava destinado a ns  disse ela, os olhos brilhantes.  Porque eu tomava plula anticoncepcional e mesmo assim engravidei. Brady afastou-lhe uma linda mecha ruiva da testa.
 Que bom!
Ela teria entendido corretamente as palavras?
 Jura?
Ele indicou que sim e lhe fez mais um carinho.
 Gostaria de poder dividir com voc a dor do parto. Mas estou imensamente feliz por nosso filho, ou filha, estar a caminho.
Cindy prendeu a respirao e s voltou a falar depois que a tormenta passou. Momentaneamente.
 No faz idia de quanto me faz feliz ao me dizer isso. Como desejei que... voc... tambm quisesse... este beb...
Tudo o mais teria de esperar. Ela j no conseguia raciocinar nem falar direito.
Mais uma pontada intensa.
A seguinte veio to rapidamente que a tomou de surpresa e a fez gritar. Havia prometido a si mesma no fazer escndalos. No queria que seu nen viesse ao mundo sob gritos.
Preocupado, Brady se levantou. Retirar a mo que ela apertava lhe deu mais trabalho.
 Querida, deixe-me chamar a mdica.
Ela mexeu a cabea de um lado para outro. No queria que Brady a deixasse, nem mesmo por um breve momento. Poderia superar tudo se o tivesse por perto, segurando-lhe a mo.
 Ainda  cedo. Dever... demorar... bem mais... A doutora acabara de passar por ali e lhes dissera isso, mas Brady j no estava mais convencido. Uma contrao quase emendava na outra, e isso era sinal de que a criana estava nascendo. Droga, se fosse um experimento de laboratrio, saberia como agir. Mas no momento sentia-se um intil.
 Talvez o beb no tenha lido o manual.
Deixou a sala antes que ela conseguisse protestar novamente. Contemplou o imenso corredor. Havia coraes por toda parte, em referncia ao dia dos namorados. Mal os notou.
A dra. Pollack estava ao telefone, no ncleo das enfermeiras. Ao se aproximar, tornou-se bvio que ela conversava com outra me, dizendo para a mulher no se preocupar com a cor do cordo umbilical.
 Vai secar e cair, sra. Nelson. No, no h nada de errado. No precisa trazer o beb para o hospital.  assim mesmo. Sim,  estranho, mas nada preocupante. Em absoluto.  Ao ver Brady, falou:  Apenas um momento, sra. Nelson. Vou pass-la para conversar com uma das enfermeiras da pediatria.
Deu rapidamente o fone  moa.
 Sim, sr. Lockwood? Progressos?
Achou prudente no informar que vira Cindy h apenas cinco minutos. Pais ansiosos no seguiam a lgica. Queriam que tudo acabasse rapidamente.
 Acho que ela j est pronta.
A mdica levou as mos aos bolsos.
 Est bem, vamos dar uma olhadela.
Ao entrar no quarto, ela j vestia um par de luvas descartveis. Sorriu para Cindy ao se posicionar perto de seus ps.
 Ento, est pronta para ter o beb?
 Desde o ms passado.
 Sheila riu.
 Essa menina!
Examinou-a com preciso. Brady estava certo. Era mesmo a hora.
 A dilatao j est perfeita  declarou.  Vou me preparar para o parto. Voc tambm, sr. Lockwood. Siga-me  informou-lhe, e passou a cantarolar enquanto saa.
O armrio com apetrechos de higiene ficava a poucos passos da sala de parto. Brady j seguia a mdica, mas hesitou ao olhar para Cindy. Sheila o puxou.
 Ela ficar bem. A enfermeira a levar para a sala de parto. Precisamos fazer a esterilizao.  Procurou encoraj-lo.  Sorria, sr. Lockwood, e tudo dar certo. As batidas do corao do beb so fortes e Cindy  jovem e saudvel. No h nada com que se preocupar.
 Tomara.
A mdica abriu a porta de um armrio reservado a futuros papais.
 Encontrar tudo de que precisar aqui. Lembra-se dos ensinamentos do curso?
Brady assentiu e fechou a porta da saleta. Trocou-se rapidamente, as palavras da mdica ecoando-lhe na mente. Parecera to confiante... Mas ele sabia que sempre havia a possibilidade de alguma coisa dar errado. Uma sensao de desespero o invadiu.
Sara da vida de Cindy e depois conseguira ser encontrado. No poderia perd-la. Jamais.
Vestido de verde, Brady empurrou a porta e olhou ao redor. Sentia dor no estmago e uma apreenso que beirava o insuportvel.
Aparentemente, havia sido mais gil do que a mdica, porque apenas uma enfermeira e Cindy estavam na sala. A moa pareceu lhe sorrir por debaixo da mscara.
Brady aproximou-se e pegou a mo da esposa.
 Oi, estranho  brincou ela, apesar da falta de ar.
Era to bom t-lo a seu lado...
 No diga isso  repreendeu-a ele.  Nunca mais seremos estranhos.
Ela sorriu, menos assustada.
Sheila entrou na sala. Suas maneiras eram precisas e tranqilas. Parecia preparar um caf, e no monitorar o nascimento de uma criana.
 Bem, vejo que os atores principais esto aqui. A enfermeira passou um par de luvas cirrgicas para a mdica e ajustou-lhe a mscara. Pronta, ela sentou-se prxima aos ps de Cindy. Franziu a testa e olhou para a enfermeira.
 Rachel, algum se esqueceu de trocar a lmpada. Preciso de mais luz aqui.
A sala era bem iluminada, mas faltava-lhe a mais prxima da parturiente.
 Trocaram h cerca de uma hora. Desculpe-me por no a ter ligado. Uma forte lmpada incandescente foi acesa. Brady olhava diretamente para essa direo e ficou momentaneamente cego. Luzes. Muito fortes. Faris vindo em sua direo. Sentiu um forte n na garganta.
Pneus cantando ao descer rua abaixo. O asfalto estava liso, graas  inesperada chuva que cara  tarde.
Em um instante Brady se viu, sentiu-se correndo e ento tropeando e caindo. Rolando na calada, tentando desesperadamente ficar fora do alcance dos pneus... de seu prprio carro.
Rolava, rolava e depois batia contra latas de lixo. Sua cabea se chocou violentamente contra um muro.
E ento veio o nada.
Tudo.
Sua cabea pareceu girar ao mesmo tempo em que ouvia algum chamar seu nome. No estava na calada. Estava na sala de parto do hospital.
Com Cindy.
E seu filho ia nascer.
 Oh!
 Sr. Lockwood?
Sheila j vira maridos e amantes tornarem-se plidos. Alguns chegavam a desmaiar durante o nascimento de seus filhos. Mas aquele parecia prestes a perder os sentidos antes de tudo comear.
 Sr. Lockwood  repetiu com voz firme.  Se preferir esperar l fora, tenho certeza de que Cindy o perdoar.
 O qu?
Ele sentia dificuldades em organizar o prprio pensamento.
 A sala de espera  Sheila insistiu e fitou a enfermeira, pedindo que a ajudasse.
Rachel se aproximou, pronta para escolt-lo at a sala.
 No!  Brady protestou, alterado. Olhou para Cindy.  Esperem. Eu me lembrei.
Sheila trocou olhares com Rachel. Percebeu que Cindy se contorcia e sabia que mais uma contrao se aproximava. No era o momento de conversar.
 Da aula? Claro, tenho certeza de que se recorda de todas as instrues, mas agora  melhor que...
A mdica no entendia. E como poderia? De nada sabia.
 No, eu me lembro. Cindy, eu me lembrei de tudo.
De cada instante do relacionamento de ambos. Do dia em que se conheceram. Da ltima discusso. Para seu grande alvio, tudo estava ali,  sua disposio, dentro de sua mente.
Cindy seria capaz de rir de alegria se seu corpo no estivesse prestes a se partir em dois.
 Oh, querido,  maravilhoso, mas neste momento eu acho... que vamos ter um beb. Oh!  gemeu ao sentir mais uma contrao.
Sheila ignorava o que acontecera, mas pelo menos Brady j no estava mais com a aparncia de quem ia desmaiar a qualquer instante.
 Est bem, sr. Lockwood. Se est mesmo decidido a ficar, erga os ombros dela  instruiu-o.
 Certo.
Ele obedeceu. Como estava leve! Cuidaria muito bem de sua amada quando voltassem para casa, prometeu em silncio.
 Est bem, Cindy  a mdica falou animada.  Conhece o procedimento. Quando eu indicar, dever fazer bastante fora, est bem? Pronta?
 Agora?  implorou, exausta.
 No, ainda no. Respire fundo. Aguarde que eu lhe pea.
Brady a ajeitou de forma a lhe fornecer bastante apoio. Sheila lhe fez um gesto, indicando aprovao.
 Est bem. Agora! Fora!
Brady mentalmente lhe passava energia, rezando e contraindo os msculos na nsia de dividir com ela esse momento difcil e especial de suas vidas.
Para surpresa da mdica e imenso alvio de Cindy, o beb nasceu quase imediatamente. A me caiu nos braos do marido, cansada demais para se mexer.
 Uma menina!  Sheila anunciou. Segurando a pequenina com prtica, examinou o milagre da vida que acabara de ajudar a vir ao mundo. Perfeita, verificou. No importavam quantos partos j tivesse realizado, jamais deixava de se emocionar.
 Uma linda e saudvel garotinha!
 Uma menina!  Cindy repetiu.
Como a desejara! Piscou diversas vezes, para ajustar a viso. Observou a mdica estender sua filha para a enfermeira. Sua querida Jamie.
Lentamente, voltou a cabea a Brady.
 Voc se lembrou?
Ou fora parte da alucinao em que estivera mergulhada?
 Sim. Para sempre.
 Oh, querido!  exclamou ela, os olhos repletos de lgrimas.  Eu o amo tanto!
Ele se sentia exaurido, como se tivesse dado  luz. Mas no o bastante para sorrir  dona de seu corao.
 E eu a amo imensamente. Rachel entregou a Brady sua filha.
 Aqui est.
 Mas que lindo presente para o dia dos namorados!  disse ele, embevecido.
 Jamie. Gostaria que se chamasse Jamie  ofegou Cindy.
 Eu jamais poderia receber presente to maravilhoso, querida. Muito, muito obrigado!
Cindy lhe respondeu com um olhar comovido. A emoo lhe roubara a habilidade de falar. Mas o sentimento que os unia dispensava palavras. Porque se comunicavam pela linguagem universal do amor.

FIM

Veja Dicas na prxima pgina.
 
DICAS
APRENDENDO COM OS BRINQUEDOS
 por meio das brincadeiras e dos brinquedos que a criana descortina o mundo real, aprende a enfrentar situaes que considera difceis e exterioriza seus sentimentos. A fantasia infantil transforma qualquer brinquedo num instrumento de expresso do seu estado afetivo. Por isso, embora os didticos sejam apontados como os melhores brinquedos e realmente contribuam, por exemplo, para o desenvolvimento dos sentidos ou para exercitar a capacidade motora, todos os brinquedos tm potencial educativo. Assim, os brinquedos podem ser considerados didticos na medida em que funcionem como campos frteis para a imaginao infantil, e esta  a maior dica na hora de escolher o presente ideal para uma criana. Deve-se dar preferncia queles que se prestam a transformaes e possam sofrer interao com a imaginao da criana. Isto porque, quanto mais a criana puder interagir com o brinquedo, montando, desmontando, usando a criatividade para criar e recriar, mais ela estar se desenvolvendo.
Para se comprar um brinquedo, alm de levar em conta a funo que ele ter e a idade da criana, deve-se observar se ele segue as normas de segurana.
Quebra-cabeas e massinha de modelar so recomendveis para todas as idades. Livros de pano tambm so bem-vindos para os mais novinhos.
Para crianas a partir dos dois anos, brinquedos de encaixar, so presentes ideais para exercitar a coordenao motora.
Brinquedos que, enquanto a criana puxa, produzem sons ritmados, so excelentes para desenvolver o senso de ritmo.
A partir dos trs anos, fantoches ou blocos de madeira em forma de casas, para que a criana construa uma cidade, so timos exerccios de dramatizao e coordenao motora.

    Vacinas
Graas aos avanos tecnolgicos e mdicos deste sculo, o homem pde desenvolver um meio eficaz de prevenir doenas que, em outras pocas, dizimavam populaes inteiras ou deixavam seqelas irreparveis em quem sobrevivia a elas. A importncia da vacinao, principalmente no primeiro ano de vida,  inquestionvel.
Vacinar, alm de garantir um futuro saudvel para a criana, tambm significa um ato de amor. Portanto, quando o beb completar 12 meses, j dever ter tomado vacinas contra: tuberculose, difteria, ttano, coqueluche, paralisia infantil (poliomielite) e sarampo. Depois do primeiro ano de vida, a criana receber reforos para garantir a continuidade imunolgica das primeiras doses aplicadas. Caso uma criana adoea e no possa tomar o reforo no prazo certo, os pais devem procurar vacin-la assim que possvel.
Algumas vacinas so especficas contra um tipo exclusivo de doena como: a vacina contra plio, contra o sarampo, ou contra a hepatite. Outras so duplas ou triplas, isto , tm ao mltipla, contra vrias doenas, como: a vacina Trplice, que protege contra ttano, coqueluche e difteria.

    Quadro de vacinao

Vacina/Datas	Meses
BCG	1-2
TRPLICE (Difteria, Coqueluche, Ttano)	2-4-6-9-15 e 4 anos
DUPLA (Difteria e ttano)	2-4-6 e 4 anos
SABIN	2-4-6-15 e 4 anos
SARAMPO	9 meses
MMR (Sarampo, Caxumba e Rubola)	15 meses
BCG	

BCG Reforo:
A cada 10 anos
 a primeira vacina que o beb vai receber.  administrada em dose nica e protege contra a tuberculose. Ela deve ser aplicada logo no primeiro ms de vida. Algumas maternidades, inclusive, fazem essa vacina antes do beb ter alta. O processo da vacinao  intramdico, isto , por injeo. As reaes que ela pode causar so: vmitos ou diarria no terceiro dia aps sua aplicao, e ngua debaixo do brao em que foi aplicada. Ela imuniza cerca de 80% das crianas, entretanto,  fcil verificar se a vacina pegou: at trs semanas depois de sua aplicao, surge uma feridinha no local, que em seguida forma uma crosta; a aplicao deve ser repetida se isso no ocorrer. A BCG imuniza por um perodo aproximado de 15 anos. E contra-indicada para bebs que tm peso inferior a 2 quilos, apresentam febre, esto tomando cortisona ou so portadores de vrus HIV.

   Sabin
Imunizando contra a poliomielite, a vacina Sabin  ministrada nas crianas at aos cinco anos de idade. A primeira dose  recomendada para o beb que completa dois meses. A segunda aplicao  feita aos quatro meses, a terceira aos seis, a quarta aos 15 meses. Entre 4 e 5 anos ser dada a quinta dose. Segura e eficaz, a Sabin  administrada por via oral, em duas ou trs gotinhas e no causa reaes. Para receber a Sabin, a criana precisa estar em jejum de uma hora antes da vacina e permanecer sem se alimentar por uma hora depois dela, agora para impedir que devolva a vacina ao regurgitar ou vomitar.  necessrio observar tambm que a criana no cuspa a vacina. As contra-indicaes para que o beb receba a Sabin so: vmitos, febre, diarria.

    Trplice
Ainda no segundo ms, a criana recebe a primeira dose da Trplice, vacina contra difteria, ttano e coqueluche. A segunda dose  feita aos quatro meses, a terceira aos seis. Com quinze meses o beb recebe a quarta dose e, por fim, um reforo aos quatro anos de idade. No entanto, se a criana contrair coqueluche no perodo em que ainda est sendo vacinada, o esquema de vacinao ser mudado e a prxima dose que ela ir receber ser feita apenas com uma vacina dupla, que a proteger contra ttano e difteria. Extremamente eficaz, a vacina  feita por meio de injeo intramuscular. As reaes mais comuns so: mal-estar geral, febre e inflamao do local nas primeiras 24-48 horas. As contra-indicaes para que o beb receba a vacina so doenas neurolgicas, febre, doenas em geral, vmitos e diarria, crianas que esto tomando cortisona ou crianas com contra-indicao mdica para tomar a vacina de coqueluche. Nesses casos, a criana pode receber, a partir do segundo ms a vacina dupla, que imuniza apenas contra difteria e ttano. Essa vacinao deve ser repetida a cada dez anos por toda a vida. No caso de gestantes que no se vacinaram, recomenda-se o uso de trs doses no seguinte esquema: as duas primeiras doses com intervalo de dois meses (mnimo de um ms) e a terceira seis meses depois da segunda. Tambm podem ser aplicadas trs doses com intervalos de dois meses entre elas (mnimo de um ms). As gestantes que se vacinaram devem receber mais uma ou duas doses, a critrio mdico. Caso a mulher volte a ficar grvida cinco anos ou mais depois de ter recebido a dose de reforo, deve voltar a ser vacinada.
- No quarto ms de vida, a criana vai receber as vacinas Sabin e Trplice (coqueluche, ttano e difteria) e, se no tiver uma cicatriz deixada pela vacina contra o BCG, far nova aplicao, pois a falta de marca significa que a vacina no pegou.
- No sexto ms de vida, a criana vai receber as vacinas Sabin e Trplice.

    Sarampo
Aos nove meses, a criana receber a vacina contra o sarampo, doena antigamente considerada incua para a criana. Em nossos dias j se sabe que ele deixa seqelas graves, principalmente se o organismo infantil estiver debilitado. Por isso, crianas portadoras de deficincias pulmonares e cardacas so vacinadas precocemente. A vacina aplicada aos nove meses d proteo  cerca de 90% das crianas e deve ser repetida, como reforo, na MMR (sarampo, caxumba e rubola) aos quinze meses. Ela  aplicada por via subcutnea, com injeo.
As reaes  vacina podem ocorrer entre cinco e doze dias depois da aplicao, sob a forma de algumas erupes na pele, as quais no significam que a criana contraiu a doena. As contra-indicaes para a vacina so: crianas que esto tomando cortisona, apresentam febre, foram expostas a raios X, tm doenas graves ou so alrgicas a ovo.

 MMR
Aos quinze meses, a criana recebe a dose nica de MMR, vacina contra sarampo, caxumba e rubola. Muito segura, esta vacina d proteo por longo tempo. E administrada por injeo subcutnea e no costuma apresentar reaes dignas de nota. Existem no mercado, vacinas independentes, que imunizam individualmente contra cada uma dessas doenas. As contra-indicaes a MMR so: crianas que esto tomando cortisona, tm febre, foram expostas a raios X, tm doenas graves ou so alrgicas a ovo.

 Vacinas fora do calendrio
Existem vacinas que no esto no calendrio oficial, e podem ser dadas s crianas para garantir uma infncia e adolescncia saudveis.
- A vacina dupla, contra a difteria  ttano,  recomendada a partir dos seis anos, principalmente se a criana no tomou todas as doses da Trplice.
- Uma vacina que pode ser dada em qualquer idade a partir dos dois anos vida  a anti-pneumoccica, que d proteo contra pneumonia pneumoccica e meningite pneumoccica. Ela  especialmente indicada para crianas com bronquite.
- As vacinas contra meningites causadas por meningococos dos tipos A e C podem ser aplicadas: a do tipo A, em crianas a partir dos trs meses; a tipo C, em crianas a partir de dois anos. Ambas so feitas por injeo intramuscular em dose nica. Entretanto, quando houver indicao, novas doses ser aplicadas a intervalos de trs anos. Em crianas com menos de dois anos de idade elas devem ser aplicadas em duas doses, mantendo-se um intervalo de trs meses entre elas. Os efeitos colaterais mais comuns so: febre, dor e inchao no local, at 72 horas depois da vacina.
- Existe tambm a vacina Anti-Haemophilus Influenza e tipo B, que d proteo contra a meningite. Ela  aplicada em trs doses: aos trs meses de idade, aos cinco e aos sete. O reforo ocorre aos 15 meses. Aplicao e efeitos colaterais sos os mesmos das outras vacinas contra a meningite.
- Adultos e crianas s devem ser vacinados contra tifo, febre amarela e varola quando morarem em regies endmicas destas doenas ou forem viajar para elas.
- Alguns pases exigem o Certificado Internacional de Vacinao contra a febre amarela para os visitantes. Esta vacina pode ser aplicada em crianas a partir de seis meses e, se for necessrio manter a imunidade, repetir doses de reforo de dez em dez anos. E aplicada por injeo intramuscular ou subcutnea. A vacina  contra-indicada para pessoas que fazem quimioterapia ou usam cortisona, e aos portadores do vrus HIV. Os efeitos colaterais so: febre, dor de cabea e local.
- A vacina contra tifo no  usada rotineiramente no Brasil, sendo indicada para viajantes que vo para reas endmicas. Pode ser aplicada a partir dos seis meses, por injeo subcutnea. Para crianas menores de dez anos prev duas doses, com intervalo mnimo de um ms entre elas. Para crianas acima dos dez anos e adultos, duas doses com intervalo de dois meses entre elas. Se houver necessidade de reforos, eles devem ocorrer de trs em trs anos. Efeitos colaterais: febre alta, dor de cabea intensa, dor local.
- A MMR pode ser repetida na adolescncia, fase em que o nvel de anticorpos contra essas doenas normalmente cai. As meninas deveriam pelo menos repetir a vacina contra a rubola, para evitar que este mal as atinja durante a gravidez.
- A vacina contra a hepatite do tipo B, o mais grave,  administrada por injeo intramuscular ou, em crianas pequenas, no vasto lateral da coxa. No deve ser aplicada na regio gltea. So aplicadas trs doses da vacina: a segunda  feita um ms aps a primeira e, a terceira, seis meses depois da primeira. Reaes apresentadas  vacina: mal-estar, febre e fadiga nas primeiras 48-72 horas.

MARIE FERRARELLA nos diz: Este livro gira em torno de um anncio publicado em jornal: Brady, volte para casa. Eu o amo, Cindy. As palavras mais simples so, normalmente, as mais eficazes. Vo direto ao assunto e surtem os melhores resultados. Escrevo desde os onze anos. Mentalmente, entretanto, venho criando histrias desde que tinha idade suficiente para formular sentenas. A televiso teve uma influncia imensa. Adorava observar a atuao das heronas corajosas e destemidas e me imaginava em seu lugar vivendo aventuras maravilhosas. Nunca fui muito presa s tradies. E uma parte de meu corao sempre permaneceu em cada herona, a cada histria que escrevo. E por isto que so to especiais para mim.
Ento aqui estou eu novamente para oferecer a vocs meu corao em forma de uma histria de amor perdido... e reencontrado. Espero que tenha lhes proporcionado horas de agradvel leitura.


